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Congresso Global de Pensamento Científico começa com foco no negacionismo

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Primeiro dia de evento promovido pelo IQC e Aspen Institute discutiu estratégias para engajar audiência, combater desinformação e convencer conspiracionistas

O primeiro dia do Congresso Global de Pensamento Científico, promovido pelo Instituto Questão de Ciência (IQC) em parceria com o Aspen Institute Science & Society Program, focou suas discussões no crescente negacionismo da ciência no mundo e como combatê-lo, principalmente em face da pandemia de COVID-19. 

Já na breve apresentação do evento, encabeçada por Aaron Mertz, biofísico, copresidente do evento e diretor fundador do Programa de Ciência e Sociedade do Aspen Institute, e Natalia Pasternak, presidente do IQC e também copresidente do congresso, Seema Kumar, chefe do Escritório de Inovação, Saúde Global e  Engajamento Científico da Johnson & Johnson, destacou a mudança de patamar da informação científica e divulgação no interesse do público, provocada pela crise sanitária.

“Vivemos um momento significativo para a ciência e também para a comunicação científica. A ciência está nas manchetes, e não mais restrita a notas de pés de página. Nunca antes vi as portas tão abertas para a levar a ciência para a sociedade quanto no ano que passou, e tanto interesse do público. Pessoas que não sabiam nada sobre protocolos de pesquisa, cálculos de eficácia, razões de risco, desfechos, número de eventos… Quem imaginaria que estes jargões, que não eram de domínio público, estariam sendo falados e compreendidos por tantos? Agora precisamos é tirar o mistério do processo, usar esta oportunidade para mostrar como a ciência é feita e acontece, com uma transparência radical, para construir confiança”, disse.

O aumento ad percepção pública da relevância da ciência para a política e a sociedade também trouxe uma explosão de desinformação, como ilustra o exemplo do físico brasileiro Ricardo Galvão, um dos convidados para a palestra de abertura do evento. Em conversa com Mariette DiChristina, diretora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Boston, EUA, e ex-editora-chefe e vice-presidente executiva da revista Scientific American, Galvão rememorou a perseguição de que foi vítima por defender com veemência a validade dos dados sobre queimadas e desmatamento na Amazônia levantados e divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sob sua direção em 2019, em atitude que lhe trouxe a animosidade do governo do presidente Jair Bolsonaro e acabou por lhe custar o cargo.

Galvão lembrou que desde a campanha eleitoral Bolsonaro já afirmava que mudaria completamente a política ambiental brasileira. Assim, quando o presidente assumiu o poder, o Inpe, com seu sistema de monitoramento da Amazônia por satélites, admirado e respeitado internacionalmente, “foi imediatamente escolhido pelo governo como um obstáculo a ser tirado do caminho”. Seguindo tal política, o instituto e seus dados passaram a ser insistentemente atacados por integrantes do alto escalão do governo, até que o próprio presidente partiu para o ataque num café da manhã com correspondentes estrangeiros no Brasil, em 19 de julho de 2019.

“Então Bolsonaro disse explicitamente que os dados do Inpe eram mentirosos e que eu trabalhava para uma ONG internacional contra os interesses do Brasil. Recebi isto como uma agressão direta à minha posição como cientista, e um ataque covarde ao trabalho de tantos no instituto. Então, ficou claro para mim que já não havia espaço para compromisso e decidi reagir fortemente em defesa dos dados e da instituição. Uma semana depois, fui demitido”, contou.

Questionada por Galvão sobre as mudanças na comunicação científica e a melhor forma de combater este tipo de desinformação e negacionismo, DiChristina ressaltou que embora a ascensão da internet e das redes sociais tenha proporcionado uma chamada “democratização da mídia”, ela também provocou uma fragmentação do discurso, com várias vozes influentes discorrendo sobre temas que por vezes não conhecem ou entendem, gerando “muito ruído no sinal”.

“Pesquisas indicam que aqueles que se baseiam nas mídias sociais para se informar são os menos bem informados. Isto porque, mais que a má interpretação e a desinformação, as mídias sociais favorecem o que é novo e pode gerar engajamento, ou seja, a polarização, as câmaras de eco e as bolhas de relacionamento”, disse, num processo que se agravou com a pandemia de COVID-19.

 “A pandemia foi uma tempestade perfeita a se abater sobre a indústria de mídia, que já enfrentava problemas com a concorrência das redes sociais pelo dinheiro dos anunciantes e a falta de recursos para investir em reportagem. Vimos jornalistas de esportes, por exemplo, tendo que cobrir assuntos com que não estavam habituados a lidar, e também muitas pessoas falando ao mesmo tempo sobre diversas questões, muitas delas sem capacitação para isso”.

Assim, os comunicadores e divulgadores científicos devem adotar estratégias para chegar ao público com a informação correta e desmontar discursos negacionistas. Segundo DiChristina, este trabalho começa com a atitude de jamair omitir-se  diante de episódios de negacionismo, mas também não partir para o confronto, ouvindo respeitosamente os argumentos e dúvidas do interlocutor para, então, responder com uma abordagem apelidada de “sanduíche de verdade”.

“É importante não repetir de imediato a mentira. A primeira coisa deve ser dar os fatos, por exemplo, que as mudanças climáticas são reais, e só então abordar o mito que se deseja combater, avisando que se trata de uma falsidade, , explicar as falácias por trás da mentira e terminar novamente reafirmando a verdade, o fato”, ensinou. “As pessoas são inteligentes e também podem entender a ciência, até determinado nível. Por isso também temos que ser capazes de ouvir, de nos conectar com os negacionistas. Ao criarmos está conexão emocional com eles, também tornamos mais provável que estejam dispostos a ouvir o que temos a dizer”, concluiu.

Discussão que seguiu no primeiro painel público do congresso, realizado poucas horas depois. Em debate coordenado por Abhilash Mishra, diretor da Iniciativa Xu de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Global da Universidade de Chicago, Joy Y. Zhang, palestrante e professora de Sociologia da Universidade de Kent, Amadeo Sarma, presidente da Sociedade para Investigação Científica de Paraciências da Alemanha, Philipp Schmid, cientista comportamental e professor de psicologia da Universidade de Erfurt, também na Alemanha, e Lee McIntyre, pesquisador do Centro de Filosofia e História da Ciência da Universidade de Boston, discutiram as particularidades dos diferentes públicos negacionistas e como tanto a mensagem quanto o formato e o mensageiro devem ser adaptados para atingi-los.

“A discussão não deve ser só sobre quem está certo. Estamos lidando com seres humanos, com pessoas que têm seus próprios interesses. Então devemos mostrar para elas que, se se desviarem da ciência, elas vão se prejudicar, e também prejudicar as suas famílias e a sociedade. Elas devem ver que é de seu próprio interesse se alinharem ao que diz a ciência”, indicou Sarma.

Processo que também pede paciência e construção de confiança, acrescentou McIntyre.

“O negacionismo não é uma questão de informação, mas de confiança”, considerou. “É impossível convencer alguém contra a sua vontade. Devemos mostrar que o negacionismo é um erro e uma mentira. Mas o que fazer com os mentirosos mais duros? Neste caso, o importante é ir atrás e desafiá-los, pois muitos deles serão a fonte da desinformação que vai influenciar o público lá na frente. Podemos não convencer estes negacionistas mais duros, mas podemos torná-los menos confiáveis aos olhos do público”.