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Evento do IQC esclarece população sobre COVID-19

Série de lives do Dia C de Conscientização trouxe informações claras e de qualidade sobre a pandemia e repercutiu na mídia

O Instituto Questão de Ciência (IQC) reforçou neste fim de semana sua missão de esclarecer a população sobre os fatos e conhecimentos que devem guiar as políticas públicas na área de saúde. Numa série de lives com a participação de especialistas, autoridades e jornalistas transmitidas por seu canal no YouTube e páginas nas redes sociais, o “Dia C de Conscientização da COVID-19” promovido pelo instituto na tarde de sábado, 3 de outubro, trouxe informações claras e de qualidade sobre vários aspectos da pandemia, como uso de máscaras, isolamento e cuidados dos infectados, os riscos de uma chamada segunda onda de infecções e o papel do Estado no seu enfrentamento e contenção, atraindo milhares de internautas e ganhando forte repercussão na mídia, com reportagens e menções em jornais como “O Estado de São Paulo”, “Folha de São Paulo” e “O Globo”, além de matérias em sites, TVs e rádios espalhadas pelo país.

Idealizado como contraponto ao anunciado, e não realizado, “Dia D” da COVID-19 do Ministério da Saúde, marcado para a mesma data e no qual a pasta pretendia promover tratamentos não comprovados e outros tipos de desinformação sobre a doença, o “Dia C de Conscientização” foi aberto pela presidente do instituto, Natalia Pasternak, que ao lado de Mariana Varella, editora do Portal Drauzio Varella, destacou a importância de uma comunicação precisa, coordenada e acessível, didática, com a população em tempos de pandemia para conter seus impactos, o que não está sendo feito por quem teria a maior responsabilidade em fazer isso no contexto nacional, o governo federal.

“Toda a ideia do Dia C nasceu desta necessidade de esclarecer pontos básicos que as pessoas ainda têm dúvidas e que são essenciais para a contenção da doença”, disse Natalia. “A COVID-19 é uma doença da sociedade, não uma doença só do indivíduo. E quando a gente fala de uma doença da sociedade com esta, em que não temos medicamentos nem vacinas, ela só consegue ser contida com o comportamento das pessoas. A gente precisa da colaboração das pessoas. E a gente não consegue fazer isso sem passar informação correta, precisa, didática, de como afinal a gente tem que se comportar, o que a gente precisa fazer. E estas informações, que deveriam vir dos órgãos de comunicação do governo, do Ministério da Saúde, infelizmente não estão vindo, ou estão vindo de uma forma atrapalhada, de uma forma confusa, e de uma forma muitas vezes explicitamente errada e contrária à ciência”.

Mariana, por sua vez, ressaltou como a pandemia despertou a população para a relevância do investimento e educação em ciência para a sociedade como um todo, bem como o atendimento universal público em saúde com programas como do Sistema Único de Saúde (SUS) e a necessidade de seu fortalecimento como um instrumento de cidadania.

“As pessoas comentaram muito, por exemplo, o caso dos Estados Unidos, que sempre foi famoso por ter bom atendimento de saúde, que as pessoas que têm bons planos conseguem um bom atendimento médico. Mas ficou muito evidente que isso só funciona para quem tem acesso, que tem bons planos de saúde, que é uma minoria da população norte-americana”, lembrou. “E aqui a gente sabe que, se não fosse o SUS, teria uma situação no Brasil muito mais grave do que tem, que já é bastante grave. A compreensão de que o SUS não serve só para dar uma assistência à saúde, ele é muito mais que isso. Ele permite que as pessoas tenham acesso à própria cidadania, que quando ela se torna usuária do SUS ela passa a existir dentro de um sistema que permite acesso a outros direitos que sem o SUS ela não teria acesso. Neste sentido, também espero que o SUS saia fortalecido disso tudo, que as pessoas reconheçam sua importância”.

A seguir, na primeira live do “Dia C”, Otávio Ranzani, médico intensivista e epidemiologista e pesquisador do Instituto para Saúde Global em Barcelona, Espanha, e Denise Garrett, epidemiologista e vice-presidente do Instituto de Vacinas Sabin, EUA, mediados pelo jornalista Hélio Gurovitz, editor de Opinião do jornal O Globo e colunista da revista Época, falaram sobre como as epidemias evoluem numa população, o cenário atual e projeções para o comportamento da COVID-19, como uma possível segunda onda de infecções no Brasil e no exterior.

“Não tem uma definição formal do que é uma segunda onda numa epidemia, mas a que eu gosto de usar é aquela subida de casos, intensa ou não, que cause um distúrbio na sociedade e no sistema de saúde”, disse Otávio. “Então, neste sentido a Europa já vive claramente uma segunda onda em vários países, com novas ordens para a mudança de comportamentos, como medidas de isolamento e uso de máscaras. É um caminho longo que a gente está passando e vai passar”.

Denise, por sua vez, salientou que os locais que registraram uma forte queda nos casos de COVID-19 o fizeram por uma de duas opções: ou porque foram impostas e seguidas medidas rigorosas de controle da disseminação do vírus, como quarentenas, lockdowns, distanciamento social e máscaras; ou porque deixaram a doença correr solta, diminuindo o número de suscetíveis ao custo econômico e social de colapso do sistema de saúde e mortes, tendo como exemplo no Brasil a cidade de Manaus. Esta diminuição, no entanto, será sempre temporária e passageira à medida que as estratégias de contenção são relaxadas enquanto não houver uma vacina ou a doença atingir uma proporção muito grande da população.

“O que acho importante a gente entender é que enquanto tivermos pessoas suscetíveis ao vírus, ele vai continuar infectando estas pessoas. Os casos podem diminuir temporariamente, mas a verdade é que este novo coronavírus é semelhante a uma erva daninha: se houver espaço para crescer, ele vai crescer, e precisa ser controlado”, disse. “Então, até que se tenha uma vacina que seja segura e eficaz, ou tratamento, o que a gente tem que fazer é tentar desacelerar a dissemissão com esforços planejados e direcionados com objetivo de reduzir a taxa de transmissão”, acrescentou, citando as medidas de distanciamento social e o respeito a elas como a principal estratégia para isso, seguida da vigilância epidemiológica com a rápida identificação e isolamento dos infectados.

Diante disso, Denise fez um apelo à responsabilidade social pessoal, de cada um de nós, para que a COVID-19 não siga matando tanto em tão pouco tempo em tantos lugares, em especial no Brasil.

“Com a reabertura no Brasil e a falta de uma liderança coesa e articulada em nível nacional, as crenças individuais, o que as pessoas acreditam sobre a doença e os comportamentos que causam sua disseminação, serão essenciais para o controle desta pandemia”, afirmou. “Em vez de uma transmissão vertical de orientação de cima para baixo, do governo para os indivíduos, que a gente deveria estar tendo e não tem, o que vai realmente vai fazer a diferença no Brasil, se teremos ou não uma segunda onda e qual vai ser o tamanho desta segunda onda, vai ser o compartilhamento horizontal dos conhecimentos entre as pessoas, e a observação do comportamento do outro. Por isso, dê o exemplo. Estamos no meio de uma pandemia. Faça sua parte. Se puder, fique em casa. Um simples jantarzinho com os amigos neste ponto da pandemia pode ser ainda problemático. Aglomeração em festas, bares, praias. Não é hora de fazer isso. E o sacrifício que vamos fazer como indivíduos é que vai proteger toda a comunidade”.

Seguindo esta linha, foi a vez de Daniel Lahr, professor do Instituto de Biociências da USP, falar na segunda live do dia sobre as evidências de como as máscaras ajudam a prevenir o contágio e transmissão da COVID-19 em conversa com André Biernath, repórter da revista Veja Saúde e presidente da RedeComCiência, que reúne jornalistas especializados ou interessados na divulgação e cobertura de temas de ciência e saúde. Depois de relatar a evolução do conhecimento sobre a importância deste acessório de proteção no contexto da pandemia, Daniel deu dicas sobre como escolher e usar corretamente as máscaras, materiais de que são feitas, quem deve usá-las, quando e por quanto tempo, limpeza, produtos para aplicar nelas ou descarte, equipamentos tipo faceshield etc.

“A máscara está se demonstrado nas análises epidemiológicas como a principal ferramenta de prevenção (da COVID-19)”, frisou. “Tem simulações estatísticas demonstrando que se todas as pessoas do mundo utilizassem corretamente a máscara, a gente poderia acabar com a pandemia em quatro a oito semanas. Então a máscara deve ser utilizada continuamente enquanto estivermos numa pandemia. Ela deve ficar sobre o nariz e a boca e você tem que sentir que ela está vedando dos lados. A gente tem que aprender a viver com estes pequenos incômodos em prol da saúde de todos”, acrescentou Daniel, partindo para demonstrar como vestir e tirar uma da maneira correta.

Na live seguinte, os especialistas convidados pelo IQC – Ricardo Schenekenberg, médico emergencista e doutor em neurociência clínica que atua no Reino Unido, e Júlio Croda, médico infectologista, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) – discutiram assuntos ainda muito pouco abordados no Brasil: o que fazer se tiver sintomas ou for diagnosticado com a COVID-19, e como o doente, suspeitos da doença e seus contatos próximos devem proceder nestes casos de forma a reduzir a possibilidade de transmitir o vírus para outras pessoas, com medidas como o autoisolamento. Na conversa mediada pela jornalista Vera Magalhães, apresentadora do programa de TV Roda Viva, colunista do jornal O Estado de São Paulo e editora do site BR Político, os dois explicaram os princípios básicos em torno desta estratégia, como o que é, quando adotá-la, por quanto tempo, se todos em um domicílio devem fazer isso no caso de uma pessoa na casa ficar doente (spoiler: sim), e abordaram outras perguntas relacionadas ao tema, que estudo da Universidade de Oxford apontou se objeto de dúvidas da parte de 95% dos brasileiros.

“Primeiro é importante que no momento que se você tem sintomas, independente de testes, você não precisa aguardar confirmação para adotar as medidas relativas ao autoisolamento”, destacou Croda, que também recomendou, se possível, alertar logo todas pessoas que tenha entrado em contato por mais de 15 minutos a uma distância de menos de dois metros a partir de dois dias antes de apresentar os sintomas, para que assim elas saibam que, se apesentarem sintomas, podem estar com a COVID-19 também. “Todo mundo deve estar bem informado para que estas pessoas também observem a presença de sintomas, essencial para que identifiquem e parem esta cadeia. Que se estão doentes, permaneçam em casa. Isto é superimportante para a gente conseguir parar esta doença, e o autoisolamento faz isso. O resultado do exame pode atrasar, mas sua atitude tem que ser imediata”.

Esta rapidez em interromper a cadeia de transmissão se mostra ainda mais importante diante do fato de que são nos primeiros dias da infecção que os doentes são mais contagiosos, salientou Ricardo. Segundo ele, desde que não haja grande piora dos sintomas, como falta de ar e dificuldades para respirar, procurar atendimento hospitalar só vai expor mais pessoas ao risco de contaminação, já que não há tratamento que comprovadamente previna ou impeça um eventual agravamento da doença, ao contrário do que recomenda o Ministério da Saúde hoje.

“A recomendação aqui no Reino Unido e do CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) americano é bem clara: se você tem sintomas, fique em casa”, disse, ressalvando que no Reino Unido é feito um monitoramento a distância dos pacientes, inclusive com testagem a domicílio. “Nos primeiros dois dias de sintomas é quando você está mais infeccioso, é quando a carga viral está mais alta. Então este é o período de maior risco para uma pessoa entrar num ônibus, chegar numa unidade básica de saúde, ficar numa fila para ter uma consulta. Olhe quantas pessoas entraram em contato com você, olha o tamanho da cadeia de transmissão que aconteceu, e para quê? Precocemente a gente sabe que ainda não há nenhum tipo de tratamento ou medicamento que vá alterar a evolução da doença”.

Neste sentido, Croda lembrou que o Brasil é um dos países que menos testa a população para diagnóstico de infecção corrente pelo SARS-CoV-2, o vírus causador da COVID-19, com um exame conhecido como RT-PCR, e a demora nos resultados quando ele é realizado, o que aumenta a responsabilidade de cada pessoa em fazer o autoisolamento se suspeitar estar com a doença e assim evitar a sua disseminação.

“É importante realçar o impacto do autoisolamento (na evolução da epidemia), do cuidado. É uma atitude de empatia se você se isola nos primeiros sintomas”, afirmou. “Você não pode justificar que ‘Ah, demorou três dias para marcar o teste, outros cinco dias para sair o resultado e enquanto o resultado não sai vou estar circulando. Vou para o bar, o restaurante, vou tocar minha vida normal, e se o resultado der positivo, aí eu me isolo’. E perdeu a oportunidade de realmente quebrar esta cadeia de transmissão”.

Outra questão levantada na discussão foi dos cuidados após o autoisolamento, com os curados achando que com isso ganharam um “passaporte de imunidade” e não precisam mais se preocupar com as medidas de prevenção e distanciamento social.

“Definitivamente as regras de distanciamento social e de proteção não mudam pelo fato de você ter tido ou achar que teve a COVID”, criticou Ricardo, que deu a si como exemplo. “No meu caso eu os sintomas compatíveis em março, quando o Reino Unido ainda não oferecia testes para casos leves, e a orientação, como ainda é agora, foi de fique em casa e cumpra o isolamento. Eu julgo que eu tive. Isso muda minhas práticas? Não. Continuo com a minha máscara de qualquer forma, as regras de distanciamento. A gente não sabe (da imunidade) e também não sabe da transmissão como fica a questão da transmissão. Então, não altera as regras e digo que não é para ninguém baixar a guarda pelo fato de ter tido COVID”.

Logo depois, Margareth Dalcomo, médica pneumonologista, pesquisadora e professora da Fiocruz, e Mauro Schechter, professor titular do Departamento de Infectologia da UFRJ, professor da Universidade de Pittsburgh, EUA, e também professor associado de Epidemiologia na Universidade Johns Hopkins, conversaram com Carlos Orsi, editor da Revista Questão de Ciência e um dos diretores e fundadores do IQC, sobre aspectos mais fundamentais e básicos da crise sanitária: o que é a COVID-19 e o que é feito para combatê-la.

Segundo Margareth, embora de início se pensasse que a COVID-19 fosse uma doença eminentemente respiratória, uma forma de pneumonia atípica, logo se descobriu que na verdade ela tem um caráter sistêmico, atacando diversas partes do corpo a partir da infecção das vias aéreas, com consequências geradas por problemas na vascularização e atacando vários órgãos e o sistema nervoso central. A pesquisadora citou ela própria e Mauro, ambos recuperados da COVID-19, como exemplos disso, assim como os muitos pacientes que atenderam ao longo desta pandemia, inclusive jovens que ficaram com sequelas da infecção.

“Dei alta esta semana para um rapaz de 38 anos sem nenhuma comorbidade que teve uma pneumonia da qual se saiu bem. Ele teve alta, mas tem uma miocardiopatia (alteração no músculo cardíaco que afeta o bom funcionamento do coração) que seguramente é perene e ele precisará fazer reabilitação cardiopulmonar provavelmente por uma grande tempo de sua vida ou talvez para sempre. E é um rapaz de 38 anos”, contou. “Com isso quero chamar a atenção das pessoas para discutir esta questão de quem é (população) vulnerável e quem não é. Ninguém é invulnerável, a verdade é essa. Temos visto no Brasil e cada vez mais internado gente muito jovem com COVID-19”.

Alerta que foi reforçado por Mauro, que relatou ainda sofrer com fortes dores de cabeça em razão da doença.

“Não é só um resfriado. Os coronavírus causam resfriados, mas este, diferentemente dos outros que ficam só nas vias aéreas superiores, invade o corpo todo, e com isso ele causa possíveis consequências de longo prazo”, afirmou, deixando para trás lesões em órgãos como coração, rins e pulmões que podem ser irreversíveis e exigir tratamento ou intervenções para o resto da vida.

Os especialistas também criticaram a divulgação de informações sobre tratamentos para a COVID-19 sem fundamentação científica ou clínica, como a cloroquina e a ivermectina. Segundo Mauro, assim como para a grande maioria dos outros vírus, não há uma terapia específica para o SARS-CoV-2, e este tipo de promoção de falsas curas acabam por atrapalhar as medidas não farmacológicas que de fato ajudam a combater o novo coronavírus, como o distanciamento social e o autoisolamento.

“O problema maior destas fake news de remédios não é nem o uso destes remédios”, avaliou. “Como já foi falado pelo Julio e pelo Ricardo na mesa anterior, no mundo inteiro a recomendação para as pessoas que têm o diagnóstico, ou que têm a suspeita clínica de COVID-19, é de que mantenham-se em casa, não saiam de casa, e se dirijam aos serviços de saúde apenas em determinadas situações, que seja feito um teleatendimento. E não, como acontece aqui, que à menor suspeita a pessoa entre em um ônibus e se dirija a um serviço de saúde. E um dos motivos que dizemos para ela não se dirigir a um serviço de saúde, além de diminuir as chances de transmissão, é que não existe um tratamento mesmo, não existe um remédio a ser feito para as pessoas que não têm critérios de gravidade”.

Margareth, por sua vez, ressalvou que isso não quer dizer que nada se possa fazer, com uma curva de aprendizado de intervenções tanto medicamentosas quanto mecânicas terapêuticas que têm beneficiado principalmente os pacientes mais graves. Mas, para a população em geral, casos leves ou profilaxia, não há o que fazer a não ser tratar os sintomas.

“É preciso ficar bem claro que não tem protocolo de coisa nenhuma”, esclareceu, acrescentando que ela mesmo não autorizou no seu caso e jamais autorizaria ou usaria tratamentos não comprovados como cloroquina e “remédio para verme”, numa referência à ivermectina. “Até o momento, COVID-19 só tem um protocolo, que é para pacientes graves e que se chama boas práticas de terapia intensiva. É por isso que a Alemanha tem os melhores resultados no controle da epidemia, porque a Alemanha tem uma tradição de terapia intensiva espetacular. Foi a mesma coisa que aconteceu no Brasil com o discurso respiradores, que virou uma panaceia como se respirador salvasse a vida de alguém. O que salva vidas não é comprar respirador. Comprar respirador serviu foi para fazer corrupção e coisa errada no Brasil. O que salva vida é gente. São médicos, nós que temos experiência em tratar pacientes, enfermagem bem formada, farmacêuticos, fisioterapeutas, ou seja, equipe multidisciplinar. Então não tem protocolo, e não tem protocolo sobretudo de tratamento precoce. Isto é uma enganação. Eu fico doente ouvindo isso, pessoas se valendo deste discurso, acreditando nisso, inclusive colegas médicos. É muito constrangedor. Não é uma coisa semântica, retórica que contraria a ciência. Não é nada disso. É que nós temos que fazer aquilo que faríamos com nossas famílias, e para nós mesmos”.

Fechando o “Dia C de Conscientização da COVID”, uma mesa especial com sete ex-ministros da Saúde – em ordem cronológica de 2003 a 2020, Humberto Costa, José Saraiva Felipe, Agenor Alves, José Gomes Temporão, Alexandre Padilha, Arthur Chioro e Nelson Teich – e mediada pela jornalista Sabine Righetti, pesquisadora, professora da Unicamp e fundadora da Agência Bori, que promoveu o evento em parceria com o IQC, debateu o papel fundamental do Estado no combate a uma pandemia como a que vivemos este ano.

Primeiro a falar, Humberto Costa considerou que cabia e ainda cabe ao Ministério da Saúde assumir o papel de coordenador das políticas e ações de enfrentamento da COVID-19, que negligenciou principalmente a partir da saída de Teich da chefia da pasta, em meados de maio, sendo substituído pelo primeiramente interino e atual titular general Eduardo Pazuello.

“Não existe nenhum segredo. O papel que o Ministério da Saúde tem que desempenhar agora é o mesmo que ele deveria ter desempenhado desde o início da pandemia, que é o de ser coordenador e articulador das ações que estão sendo desenvolvidas pelo Sistema Único de Saúde e de prevenção que são tão importantes, especialmente o isolamento social”, disse. “E este papel ainda há tempo de ser cumprido. Felizmente nós temos um sistema de saúde que é nacional, mas também descentralizado. Assim, apesar da absoluta ausência do Ministério da Saúde, principalmente depois da saída do ministro Teich, os estados e municípios foram capazes de tocar este processo para frente. Ainda que cada um adotando um pouco sua própria diretriz, mas dentro de um conjunto de ações que tem uma definição exata de quem faz o quê”.

José Saraiva Felipe, por sua vez, destacou que o Ministério da Saúde teria o dever de seguir e implementar políticas baseadas em evidências científicas recomendadas por instituições nacionais e internacionais, e expressou o temor de que o fortalecimento experimentado pelo SUS para enfrentar a pandemia seja desperdiçado uma vez que ela passe.

“Primeiro, o Ministério da Saúde deveria se colocar nas mãos das orientações científicas, sejas das instituições brasileiras, como a Fiocruz e o (instituto) Butantan, e acompanhar as orientações da Organização Mundial da Saúde. Então, gostaria de frisar o que ele não deveria fazer, que é questionar as orientações baseadas em evidências científicas”, considerou. “Segundo, é valorizar o que funcionou até agora, que é o Sistema Único de Saúde. Capilarizado, importante. Não tem um país com uma população como a do Brasil com um sistema tão espalhado, tão importante. Tivemos um aumento muito grande de estrutura. Não a provisória, de hospitais de campanha. Só em leitos de UTI em Belo Horizonte tivemos um aumento em hospitais tradicionais em torno de 50%. E estou assustado com a ideia de que isso vai se tornar uma estrutura obsoleta, que (estes leitos) vão ser abandonados porque está caindo a internação. Tenho medo que o que o SUS ganhou de musculatura neste período da pandemia, se nós não estivermos atentos, vai se perder. Não sei se o Ministério da Saúde atual vai ter a clarividência, a clareza de ver que está na hora de fortalecer um sistema de saúde que é dos mais importantes, mais bem estruturados e mais bem articulados do mundo. O Ministério da Saúde deveria ter se colocado nesta posição, e não de criar confusão sobre questões sem nenhuma base científica”.

Logo depois foi a vez de Agenor Alves reforçar a questão das orientações:

“O que o ministério tem que fazer agora é aproveitar este momento de certa maturidade no enfrentamento da pandemia e fazer uma reflexão sobre o que não foi feito. O SUS, de certa forma, não tem só uma dependência de gestão, financeira, do Ministério da Saúde. Ele tem uma dependência de orientação, e o Ministério da Saúde tem que ter consciência disso. Fazer uma reflexão, chamar os parceiros, conversar, negociar, fortalecer aquelas ações (de combate à COVID-19) que de alguma forma não foram fortalecidas para que se possa enfrentar inclusive o dia seguinte (da pandemia)”.

Articulador do encontro dos ex-ministros, José Gomes Temporão indicou seis pontos em que, na sua avaliação, o Ministério da Saúde falhou no enfrentamento da pandemia, seja por omissão, fragilidade ou falta de liderança. Segundo ele, a falta de uma ação integrada para um esforço nacional de combate à COVID-19 foi um “desastre”, que também não permitiu uma abordagem intersetorial que levasse em conta as desigualdades estruturais e sociais do país, de modo que “saúde, educação, ação social, economia estivessem todas sintonizadas com um único objetivo: salvar vidas”.

Outro alvo de críticas de Temporão foi o negacionismo científico vindo principalmente do presidente da República, Jair Bolsonaro, que atrapalhou a gestão da pandemia com “falsas promessas” e a promoção de “medicamentos sem efeito contra a doença”. Na sua opinião, sem a liderança do presidente ou seu titular, o Ministério da Saúde também falhou ao não aproveitar a estrutura do programa Saúde da Família para a detecção precoce, isolamento e monitoramento de casos, tampouco foi ágil no aumento da oferta de leitos e atenção básica de casos mais graves. Diante disso, preocupa também o ex-ministro o que vai acontecer quando uma das vacinas em fases adiantadas de teste no país ficar disponível, já que houve uma “mudança radical nos quadro” do órgão, com a entrada de pessoas em cargos de chefia, muitos deles militares, sem qualquer experiência na área de saúde pública.

“Há dúvidas em relação aos próximos passos, de confiabilidade”, declarou. “Terá o atual governo, o Ministério da Saúde, liderança e capacidade técnica de realizar uma campanha nacional de vacinação com os resultados que a sociedade brasileira espera?”

Já Alexandre Padilha cobrou que o Ministério da Saúde assuma o papel que deveria ter de esclarecer a população sobre a COVID-19 e a real situação da pandemia do país, sem populismo, além de manter, reforçar e usar a estrutura do SUS no seu enfrentamento também quando chegar uma vacina, de forma a garantir que todos tenham acesso a ela.

“O ministério precisa fazer o que estamos fazendo aqui, ser uma voz de conscientização de que a pandemia não acabou. Ainda temos muitas mortes e desafios importantes a enfrentar. Proteção do trabalhador, retomada atividades, não a postura negacionista que o ministério está tendo hoje”, resumiu.

Outro que não poupou críticas à atuação do Ministério da Saúde na pandemia foi Arthur Chioro. O ex-titular da pasta destacou que embora tenha apenas cerca de 2,7% da população mundial, o Brasil acumula aproximadamente 15% das mortes pela COVID-19.

“Esta tragédia é fruto da desastrosa condução desde o início do enfrentamento da pandemia da parte do Ministério da Saúde”, lamentou, frisando que é responsabilidade da pasta coordenar técnica e politicamente a resposta à crise sanitária tanto na âmbito nacional quanto internacional, e não agir da forma “absolutamente precária” como está.

Único dos ex-ministros convidados que esteve à frente da pasta durante a crise da pandemia, Nelson Teich tentou contemporizar as cobranças. Embora tenha concordado que cabia e cabe ao Ministério da Saúde liderar e coordenar os esforços de enfrentamento da COVID-19, isso não é algo que se possa fazer “da noite para o dia”.

“O sistema é fragmentado. Se você não tem informação, coordenação, já existente, não consegue fazer isso da noite para o dia. Este papel de liderança, coordenação e eficiência tem que existir naturalmente”, disse.

Teich, no entanto, admitiu que a falta de cooperação advinda deste problema se mostrou “um desastre”, ainda mais porque permitiu que “posições políticas e partidárias” estivessem acima das necessidades da sociedade.

“A fragmentação é receita de uma dificuldade enorme de coordenação e cooperação. Você tem uma miscelânea de partidos e políticas que, se a sociedade não for colocada acima disso, se não for uma gestão suprapartidária, vai ser muito difícil que a saúde e a sociedade estejam em primeiro lugar”, considerou.

Este ponto também foi alvo de grande preocupação dos demais ex-ministros no prosseguimento do debate, no qual destacaram a briga entre governantes e entes federativos envolvendo as vacinas atualmente em desenvolvimento. Todos declararam temer disputas de poder e uso político da aprovação e distribuição dos eventuais imunizantes, com graves consequências para a saúde pública.

Encerrando a transmissão do evento, Natalia Pasternak, presidente do IQC, pediu para que as informações disponibilizadas pelo “Dia C” continuem a circular para chegar ao maior número de pessoas possível e para que todos possam fazer sua parte no combate à pandemia.

“Sejam multiplicadores de tudo que aconteceu aqui. Não guardem só para vocês. Mandem para as famílias, mandem para os amigos. A informação é valiosa, é preciosa e ela pode salvar vidas”, frisou. “Todos falamos aqui da importância da comunicação da ciência e da conscientização para que cada um possa fazer a sua parte. Hoje nós fizemos nossa parte, e o ‘Dia D’, que ia acontecer, não aconteceu. Esta é nossa força. É isso que a gente consegue fazer quando faz juntos, quando a gente segue a ciência, as evidências científicas, e quando a gente usa estas evidências científicas para que todos tenham acesso gratuito a informação de qualidade”.

Natalia lembrou ainda que isso também vale para a defesa da democracia.

“Informação é essencial para a ciência assim como é para a democracia. Não existe liberdade de escolha, nem na democracia, nem na ciência, sem acesso aos fatos, sem acesso a informação de qualidade”, avaliou. “Se você não tem acesso a informação, você não é livre para escolher. Você é apenas um escravo da ignorância. Hoje saímos daqui mais sábios, com muitos aprendizados e muitas coisas para dividir com nossos amigos e famílias quando aparecerem dúvidas de como eu devo me comportar, o que eu preciso fazer para combater esta doença que é nossa, que é uma doença da sociedade, mas que cada um pode fazer a sua parte para que a sociedade se cure. E quando nosso mundo estiver curado a gente vai saber: ‘fui eu que fiz’, ‘fui eu quem ajudei’”.

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