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IQC celebra realizações, apresenta projetos e mostra planos para o futuro em evento público

IQC Day também teve debate sobre negacionismo, políticas públicas baseadas em evidências e educação científica com participação de sua presidente, Natalia Pasternak, de Drauzio Varella e Leonardo Sakamoto

O Instituto Questão de Ciência (IQC) promoveu no sábado, 23 de julho de 2022, evento público em que celebrou suas realizações nos últimos anos, apresentou novos projetos, como o recém-lançado Observatório de Políticas Científicas, e planos para o futuro. Primeiro encontro presencial do instituto desde o início da pandemia de COVID-19, o IQC Day também teve um debate sobre negacionismo, políticas públicas e educação científica com participação de sua presidente, a microbiologista Natalia Pasternak, e do médico e divulgador científico Drauzio Varella, com mediação do jornalista Leonardo Sakamoto.

Abrindo o evento, o diretor de Comunicação do IQC, o também jornalista e escritor Carlos Orsi, recapitulou a história da criação do instituto há quase 4 anos, tendo realizado dois eventos presenciais – seu lançamento, em 2018, e a comemoração de um ano de fundação, em 2019 – até a pandemia de COVID-19 se abater sobre o mundo a partir de janeiro de 2020, numa tragédia que deixou mais de 6 milhões de pessoas mortas em todo planeta até o momento.

“Esta tragédia torna evidente a importância dos valores que o Instituto Questão de Ciência foi criado para defender e promover: o respeito às evidências científicas para a formulação de políticas públicas, principalmente em saúde; e a promoção do pensamento crítico e racional para que o cidadão comum, bem como os gestores públicos, não sejam induzidos ao erro ou enganados por agentes mal intencionados”, disse.

Segundo Orsi, se a tragédia da pandemia deixou claro para o público em geral que os valores defendidos pelo IQC são essenciais, essa essencialidade já era conhecida antes mesmo de o instituto surgir, embora não fosse tão facilmente reconhecida. Assim, para lembrar disso, foi exibido vídeo de 2018 com declarações de apoio à fundação do IQC por personalidades como o já falecido James Randi, decano do movimento cético mundial; o médico, pesquisador e crítico de terapias ditas “alternativas” alemão Edzard Ernst; o biólogo evolutivo e escritor britânico Richard Dawkins; o físico brasileiro e então reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Marcelo Knobel;    Drauzio Varella; o físico e professor da Universidade do Estado da Califórnia (EUA) Ray Hall; a fotógrafa e desmascaradora de “médiuns” Susan Gerbic; e o cientista político, pesquisador do paranormal e atual diretor executivo do Comitê para Investigação Cética (Committee for Skeptical Inquiry, ou CSI, na sigla em inglês), Barry Karr.

A seguir, também foi exibido vídeo com mensagem enviada pela vice-reitora da USP Maria Arminda do Nascimento Arruda em que ela louva o debate e discussão que o instituto tem feito no âmbito das políticas de ciência e tecnologia. Segundo ela, o IQC ganha muito em relevância pelo fato de no Brasil normalmente as instituições que promovem estas discussões são governamentais, ou, quando muito, núcleos alojados no interior das universidades públicas brasileiras, e por ser uma iniciativa independente o instituto tem a liberdade de abordar estes assuntos com foco no interesse público relacionado a essas políticas.

“O IQC alia o melhor de tudo isso. Primeiramente porque, uma vez que não é iniciativa oficial, ligada ao Estado brasileiro, é uma iniciativa que tem condições de pensar criticamente as políticas de ciência e tecnologia. E, de outro lado, agrega profissionais, professores formados na universidade e que são da mais alta qualidade científica”, destacou Arruda.

Depois foi a vez de a presidente do IQC apresentar as realizações e projetos do instituto nos últimos anos, que foram muito além do “trabalho de nicho” que ela e os outros fundadores achavam que seria sua principal contribuição para a sociedade brasileira quando de sua criação em 2018. Entre eles, a criação em 2021 do Prêmio Ruth Bellinghini de Jornalismo Científico, batizado em homenagem à jornalista especializada em ciência falecida no ano passado que teve na Revista Questão de Ciência seu último emprego. O ganhador da primeira edição foi o também jornalista Guilherme Balza, repórter da TV Globo/GloboNews que revelou o escândalo dos experimentos do grupo de saúde Prevent Senior com os chamados “Kits Covid” em seus pacientes.

Pasternak também relembrou sua participação na CPI da Pandemia no Senado Federal; a participação do instituto em outras audiências públicas no Senado e na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo sobre a pseudociência da Constelação Familiar e hesitação vacinal, respectivamente; parceria com Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) em curso também sobre hesitação vacinal; e participação em grupo de trabalho da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a chamada “infodemia” que busca métricas para mensurar impacto da desinformação na saúde pública global.

A presidente também listou os prêmios e reconhecimentos que recebeu no período, com destaque para sua indicação como uma das 100 mulheres mais influentes do mundo pelo grupo de comunicação britânico BBC; o Jabuti, principal prêmio literário brasileiro, na área de ciências para o livro “Ciência no Cotidiano”, que escreveu com Orsi; o recém-criado Prêmio Mulheres na Ciência Amélia Imperio Hamburger, iniciativa da Câmara dos Deputados; e o Prêmio Mulheres em Ação da Federação Israelita do Estado de São Paulo.

Já os projetos nos últimos anos citados pela presidente do IQC incluem o primeiro Congresso Internacional de Pensamento Científico, realizado em 2021 em parceria com o americano Aspen Institute e que reuniu representantes de mais de 50 países que trabalham com comunicação e defesa da ciência; sua participação no documentário “Infodemic”, da rede de TV pública americana PBS, em que, representando o Brasil, debateu com representante da Índia o negacionismo nos dois países; a série de lives “Diário da Peste” no canal do YouTube do IQC em que ela, Maurício Nogueira, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Virologia e professor da Faculdade Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP), e ocasionais convidados traziam semanalmente notícias e informações sobre a pandemia de COVID-19; e a consolidação da Revista Questão de Ciência como veículo para dar visibilidade e ampliar o foco das discussões sobre negacionismo, pseudociências, políticas públicas baseadas em evidência e outros temas de atuação do instituto.

Pasternak também aproveitou para apresentar alguns dos planos do IQC para o futuro. Entre eles, parceria com a revista Veja Saúde para criação de um curso de formação e treinamento em jornalismo científico e de saúde; parceria com a Editora Unesp para tradução e publicação de livros sobre ciência, negacionismo e pensamento cético ainda não disponíveis em português, além de livros de autores brasileiros na área; parceria com Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) em curso de treinamento de secretários, gestores e equipes da área de saúde sobre uso de evidências científicas na formulação de políticas públicas; novo congresso internacional em parceria com o Aspen Institute, desta vez focado em diplomacia científica; e uma série de livros a ser publicada em parceria com a Columbia Press, da Universidade Columbia (EUA), intitulada “What Science Says” (“O que a ciência diz”, também em tradução livre) com obras pequenas, fáceis de ler e de autores de diversas partes do mundo com informações do que a ciência sabe de temas como astrologia, curas quânticas e outras pseudociências.

“Este é meu projeto mais querido. Esses livros talvez venham a ser o primeiro contato de muitas pessoas com o que a ciência realmente diz sobre assuntos que passeiam por aí disfarçados de conhecimento científico”, comentou a presidente do IQC.

A seguir foi a vez do diretor executivo do IQC, Paulo Almeida, apresentar a concretização de outro grande projeto recente do instituto, o recém-lançado Observatório de Políticas Científicas, construído com apoio do Instituto Serrapilheira e que já pode ser acessado neste link

Comparando o estado das informações sobre o setor de ciência e tecnologia à “Biblioteca de Babel” do escrito argentino Jorge Luis Borges, Almeida destacou que o observatório chega para não só organizar e facilitar o acesso a estes dados, como para ser uma ferramenta na gestão e formulação de políticas públicas. Para isso, já chega com mais de 200 gráficos, relatórios e outros conteúdos relevantes.

“Não tínhamos nada assim, e agora temos”, comemorou. “Queremos ser agregadores de diversas iniciativas e transformar o repositório em uma ferramenta que funcione continuamente, com informações apresentadas de forma simples e fácil para uso por tomadores de decisão, imprensa e população”.

Outra faceta do observatório é o monitoramento das políticas governamentais para o setor de ciência e tecnologia, inicialmente no Poder Legislativo, mas que no futuro deverá incluir o Executivo e Judiciário, além de fornecer consultorias gratuitas na área para instituições públicas, principalmente as menores, que não têm condições de fazer este trabalho por conta própria.

“Mais uma vez, queremos que o observatório seja uma ferramenta, e não só um repositório de informações”, reforçou.

Por fim, o público que acompanhou o IQC Day no auditório da Unibes Cultural, no bairro do Sumaré, São Paulo, foram brindado com um inspirado debate sobre negacionismo, políticas públicas e educação científica entre Pasternak e Drauzio Varella, e com mediação de Sakamoto. Respondendo à questão sobre o que é negacionismo, afinal, a presidente do IQC lembrou que ele advém sobretudo como uma fuga de responsabilidades por seus proponentes.

“Gosto de diferenciar ceticismo de negacionismo. Ceticismo é dúvida saudável, que exige evidências robustas do que se afirma. Por isso, IQC participa do movimento cético, exige evidências e quer que sejam mais usadas nas políticas públicas”, ressaltou. “Já o negacionismo é negar as evidências mesmo que elas sejam apresentadas de forma clara, porque de alguma forma não agradam ou ferem ideologias pessoais, pois se você aceitar essas evidências teria que mudar comportamentos”. 

Varella, por sua vez, lembrou que desde a mais tenra infância as pessoas são ensinadas a acreditar em pensamentos mágicos pela educação religiosa, e muitas delas pouco aprendem sobre o pensamento científico durante toda sua vida.

“A superstição é simples de entender. Por outro lado, falar de ciência implica mínimo informação científica que não é dada para ninguém”, lamentou, dando como exemplo o comportamento de muitos de seus colegas médicos durante a pandemia de COVID-19, com seu apoio ao chamado “tratamento precoce” com remédios inúteis como cloroquina e vermífugos. “São pessoas que saíram, por exemplo, da USP sem o mínimo de formação, sem entender o que é pensamento científico, e assim ficam sujeitos a todo tipo de despautério. Deveríamos começar a explicar o pensamento científico no jardim da infância, e não ficar com teorias mirabolantes sendo ensinadas para crianças e até universitários”.

Problema que Varella contou também chegar a seu consultório e ao de outros colegas, com pacientes que escondem de seus médicos tratamentos “paralelos” alternativos, como a homeopatia ou “curas espirituais”, citando como exemplo o escândalo envolvendo o médium João de Deus e acusações de abuso sexual.

“Você oferece a realidade que está vendo, e às vezes esta realidade é muito dura. Já o pensamento mágico traz a crença de que, fazendo aquele tipo de tratamento, você será curado”, contou. “Vejam o caso deste maluco que foi João de Deus, que multidões procuraram. Muitos pacientes oncológicos meus depois me contaram que procuraram João de Deus, e três até que tinham sido abusados”. Segundo Varella, isso acontece porque o desespero diante da morte é uma questão filosófica básica da Humanidade.

“O homem resiste em achar que a morte é o fim da vida, que a vida é só isso aqui e nada mais. As pessoas ficam decepcionadas com a vida e começam a criar fantasias de acordo com suas necessidades, que vai ser feliz em outro mundo. A fantasia não tem limites”, disse. 

“Essa é uma dificuldade da ciência. Você fala uma linguagem que a pessoa não entende, pois ela confia em um tipo de evento que não existe, não acontecerá. E isso faz com que ela comece a desvalorizar a própria vida em si em função da crença de que terá uma vida de outra natureza depois desta”, lamentou.

Aproveitando a deixa, Sakamoto perguntou então à presidente do IQC sobre a relação do negacionismo com a homeopatia, vacinas e aquecimento global, com Pasternak respondendo sobre a retomada da campanha “10^23 – homeopatia é feita de nada” promovida pelo instituto.

“Novamente, o negacionismo vem quando bate em alguma coisa que vai me fazer mudar de comportamento”, disse. “Existe uma ligação emocional forte dos homeopatas com a prática que abraçaram. Então, quando você fala que a homeopatia não é científica e não funciona, você está destruindo uma vida de conexão emocional que a pessoa desenvolveu com aquelas gotinhas e bolinhas de açúcar. Vi muitas pessoas que criticavam a questão da cloroquina e a falta de evidências para seu uso no tratamento da COVID-19, mas na hora que eu comparava esta crença com a crença na homeopatia, elas logo respondiam: ‘não mexe na minha homeopatia não!’. Mas os argumentos são os mesmos. São os estudos de caso, observacionais, evidências anedóticas, experiência do médico, autonomia de prescrever o que quiser. Já vimos este filme em todas as práticas alternativas que estão no SUS e que o IQC critica”.

Por isso, acrescentou Pasternak, a educação em pensamento científico tem que acontecer não só no ensino básico mas também no ensino dos profissionais de saúde.

“Mas perceba a diferença: não é proibir a homeopatia, é banir ela do sistema público de saúde”, frisou. “Ninguém está mandando pessoas se comportarem do modo X ou Y. As pessoas têm direito de usar e se tratar com o que quiserem. Mas elas também têm direito de saber o que tem naquele medicamento, ser informadas adequadamente, se o tratamento desejado passou pelo mesmo crivo da ciência que práticas médicas autorizadas e comprovadas. Muitos países retiraram homeopatia dos seus sistemas públicos de saúde porque não há evidência que justifique autorizar o uso de recursos públicos nela”.

Daí vem novamente o problema da falta de educação científica da população, destacaram os dois debatedores.

“O ponto fundamental é como pegar conhecimento científico e colocá-lo na linguagem que as pessoas possam entender. Esse é o grande desafio para que elas não fiquem expostas ao pensamento negacionista”, resumiu Varella.

Questão que se agrava com o aumento da relevância das redes sociais na comunicação, com seus chamados influencers ganhando ares de especialistas com base apenas no número de seguidores e do sucesso que têm, e não seus conhecimentos técnicos de fato, acrescentou Pasternak.

“Tal como em época de Copa do Mundo vemos o surgimento espontâneo de milhões de técnicos de futebol, com a pandemia vimos surgir montes de virologistas e epidemiologistas nas redes sociais. Mas muitos jornalistas que nunca cobriram saúde e ciência de repente tiveram que fazer esse trabalho, e eles não sabiam identificar os verdadeiros especialistas. Eles entravam no Twitter, começaram a ver que alguém fala do assunto, tem seguidores, que é seguido por outros e acham que são os especialistas”. 

Daí também a necessidade de encontrar as plataformas e a linguagem certa para levar a informação científica para as pessoas, ressaltou Varella, que arrancou risos da plateia contando sobre sua estreia no TikTok, rede social muito frequentada pelo público mais jovem.

“Neste momento, tenho 130 mil seguidores no TikTok, com 5 milhões de visualizações, e sem fazer nenhuma coreografia”, relatou. “Precisamos encontrar que caminhos são estes para chegar ao público e a linguagem para usar em cada um deles. A gente vai aprendendo sempre”.

Pasternak concordou:

“É importante ter essa habilidade de estar nestas plataformas, ocupar os espaços, porque eles serão ocupados de qualquer jeito: se não por nós, por outros, até por gente bem-intencionada mas que não tem capacidade técnica para estar lá. Por isso temos que continuar a cumprir a missão do IQC de levar informação de qualidade para a população, inclusive com projetos paralelos como o Observatório de Políticas Científicas. Hoje, tenho muito orgulho do que a gente construiu em menos de quatro anos, do trabalho que fizemos para a sociedade durante a pandemia. É mais do que muitas instituições médicas e científicas fizeram. Por isso o IQC deve permanecer relevante e com credibilidade para continuar a fazer um bom trabalho”.