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IQC e SBIm realizam curso sobre hesitação vacinal e negacionismo

Iniciativa voltada para médicos busca ajudar profissionais a identificar estratégias do discurso negacionista para melhor orientar e tirar dúvidas de pacientes vítimas da desinformação

O Instituto Questão de Ciência (IQC) e a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) promoveram em 29 de julho último a primeira edição de curso sobre hesitação vacinal e negacionismo. Voltada principalmente para médicos e outros profissionais da área de saúde, a iniciativa tem como objetivo ajudá-los a conhecer e identificar as principais estratégias do discurso negacionista, e assim poderem melhor orientar e sanar dúvidas trazidas aos consultórios por pacientes vítimas da desinformação.

Abrindo o evento ao lado de Juarez Cunha e Isabella Ballalai, respectivamente presidente e vice-presidente da SBIm, e Clóvis Constantino, presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a presidente do IQC, Natalia Pasternak, destacou como a hesitação vacinal é um fenômeno recente no Brasil, historicamente uma referência internacional na área por seus altos índices de cobertura vacinal proporcionados pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI), instituído na década de 1970 como parte dos esforços para a erradicação da poliomielite, sarampo e outras doenças imunopreveníveis no país. Situação que vem sendo prejudicada pela epidemia de desinformação sobre vacinas que se espalha pelo planeta nas últimas décadas, e foi agravada pela pandemia de COVID-19, contra a qual nossos médicos e profissionais de saúde não foram treinados para enfrentar.

“A hesitação vacinal é algo sem precedentes na nossa história. O Brasil sempre foi um país de vacinas, onde a população sempre foi favorável à vacinação, em que o pediatra simplesmente olhava o calendário de vacinação e dizia para os pais que estava na hora de a criança tomar esta ou aquela vacina e pronto, a consulta acabou ali”, lembrou. “Hoje, porém, muitas vezes neste momento o pediatra ouve como resposta um ‘não’. E o profissional de saúde não está preparado para esta resposta, não sabe como reagir a esta resposta”.

A presidente do IQC acrescentou, porém, que embora esta desconfiança seja recente no Brasil, não é no resto do mundo, o que pode ajudar no desenvolvimento de estratégias para combatê-la aqui.

“Países como Estados Unidos, França, já sofrem com a hesitação vacinal há muito mais tempo que a gente, e podemos aprender com eles sobre como lidar com isso”, disse.

Diante disso, continuou Pasternak, veio a ideia do curso em parceria com a SBIm:

“Começamos o instituto com uma preocupação de defesa de politicas públicas baseadas em ciência na área de saúde, e enquanto pensávamos sobre a hesitação vacinal percebemos que precisávamos de um trabalho muito forte de comunicação, de treinamento mesmo, dos profissionais de saúde para entender melhor o que é a hesitação vacinal, o que é o movimento antivacina e quais são as melhores estratégias para tentar impedir que o Brasil caia neste buraco negro que infelizmente outros tantos países já caíram por falta de confiança, de conveniência, de planejamento e outros aspectos que afetam a cobertura vacinal”.

A seguir, foi a vez de Ballalai fazer a primeira palestra do curso. A vice-presidente da SBIm traçou um histórico das epidemias que atingiram a Humanidade, e como o surgimento das vacinas foi fundamental na luta contra a doenças infecciosas, levando ao controle e supressão de várias delas e mesmo à sua erradicação, como no caso da varíola. Ela, no entanto, lamentou que, apesar disso, muitos integrantes da comunidade médica tenham passado a ver as vacinas com desconfiança.

“A nossa missão, o que a gente tem dentro da gente, é curar, salvar vidas, e não tem nada pior que uma total sensação de impotência quando chega uma nova doença infecciosa, muito contagiosa e muito letal. O medo do desconhecido faz com que até nós, profissionais da saúde, sejamos suscetíveis a qualquer informação que pareça trazer uma salvação. E assim também começa uma infodemia. Vimos isso na COVID-19, primeiro com os supostos ‘tratamentos precoce’, e depois com relação às vacinas”, lamentou. “As pandemias e grandes epidemias destroem confiança, destroem civilizações, destroem economias, e o fator por trás disso é a resposta que damos à insegurança da população. O ser humano adora um boato, que hoje, num mundo de informações sem fronteiras, ganha força e fica muito mais difícil de combater. Por isso a desinformação é um crime de saúde pública, e a gente precisa fazer com que o profissional de saúde esteja mais preparado para enfrentar isso”.

Depois foi a vez de Stuart Firestein, chefe do Departamento de Biologia da Universidade de Colúmbia, EUA, e um reconhecido promotor da ciência e do método científico, fazer sua apresentação, via internet. Tendo como ponto de partida o que ficou conhecido como a “Aposta de Pascal”, na qual o filósofo, matemático, físico e teólogo francês do século 17 Blaise Pascal (1623–1662) argumentava que acreditar na existência de Deus é a decisão mais racional, Firestein afirma que a mesma lógica se aplica na decisão de tomar uma vacina, e o que falta é melhor comunicar o público disso, num processo de letramento científico da população.

Frisando que o desconhecimento e o mal entendimento não são exclusivos da ciência, ele então citou diversas ações que as pessoas têm e ferramentas que usam sem necessariamente saber como funcionam, como dirigir um carro, trabalhar com um computador, fazer uma ligação no celular ou navegar com um GPS. Assim, segundo ele, há uma diferença entre o que você precisa saber para usar algo, o que deve saber e o que é capaz de saber. E, então, o analfabetismo científico não é apenas não saber os fatos, e saber apenas os fatos não é letramento científico, sendo necessário educar o público sobre o método científico. Amostra disso, citou, é o uso comum da expressão de que algo é “provado cientificamente”, e que muitas vezes envolve coisas que não são comprovadas, muito menos cientificamente.

Daí, outro desafio é comunicar para o público o caráter inerentemente incerto da ciência em contraponto a uma visão determinística que as pessoas têm dela. Neste sentido, Firestein recomendou que se deve ressaltar que uma ciência indefinida não é uma ciência ruim, mas um sinal de que o conhecimento é um processo em constante construção, no que foi o primeiro tema de sessão de debate posterior à sua apresentação.

“É muito difícil mudar a mentalidade das pessoas de que os cientistas sabem os fatos, têm o conhecimento total das coisas, porque este é seu trabalho”, disse em resposta a questionamento feito pela presidente do IQC sobre como melhor comunicar esta incerteza para o público. “As pessoas gostam de certezas, e isso muitas vezes nos leva a dar respostas que são simplistas demais. E com isso, de certa forma, também subestimamos o público. Nós acreditamos que o público quer certezas, que quer uma receita, mas acredito que se nós dermos a ele conhecimento, informação, podemos ter mais sucesso. Mais que dizer ‘faça isso’ ou ‘não faça aquilo’, distribuindo ordens, podemos dar às pessoas informação sobre qual o nível de incerteza que temos sobre aquele assunto, de forma que elas possam dimensionar esta incerteza e serem capazes de tomar uma decisão em um ambiente de incerteza. Sei que não é a melhor resposta para este problema, mas é a resposta possível”.

Ainda durante a sessão de perguntas e respostas, Firestein discorreu sobre outras estratégias para melhorar a comunicação do que é ciência e como ela funciona para o público e combater a desinformação. Entre elas, convocar outros atores da sociedade, como jornalistas e líderes comunitários ou religiosos, para promover a aproximação da ciência com a população e a disseminação do conhecimento, numa abordagem em diferentes “camadas” com diferentes níveis de complexidade tanto em nível local, territorial, quanto pela internet.

“Quem fala com você sobre o quê, de onde vem a informação, é muito importante para as pessoas”, destacou. “Precisamos agir em conjunto com atores locais, usar padres, professores, jornalistas para comunicar a ciência e furar bolhas. Uma das revelações da pandemia foi o enorme poder dos influencers junto ao público. Então, precisamos ter influencers científicos, pessoas que entendem de mídias sociais e ciência. E isso não é algo para que os cientistas são treinados. A guerra de narrativas e a polarização nas redes sociais são um terreno novo para a gente. Estamos acostumados com um debate acadêmico, onde a ciência está acima de tudo. Por isso precisamos desenvolver estas camadas de pessoas para diminuir o poder da desinformação tanto dentro quanto fora da internet. Não é a primeira vez que a ciência se vê em oposição a parte da sociedade. Já passamos por isso antes. Não são problemas insolúveis, ainda que esse trabalho leve tempo e por vezes possa ser frustrante”.

Dando continuidade ao curso, o diretor executivo do IQC, Paulo Almeida, fez palestra em que expôs os fatores ambientais, sociais e comportamentais que afetam a decisão de uma pessoa em tomar uma vacina ou levar seus filhos para a vacinação, e como atuar sobre eles pode ajudar a elevar as taxas de cobertura e diminuir a hesitação vacinal.

“São barreiras ao comportamento ideal no nível populacional, em que pequenos nudges (algo como um ‘empurrãozinho’) podem levar as pessoas na direção pretendida”, resumiu.

No primeiro caso, por exemplo, está a promoção de um “ambiente propício” à vacinação tanto do ponto de vista físico quanto contextual, o que envolve desde a conveniência da localização e dos horários de funcionamento dos postos à disponibilidade de informações sobre o procedimento e sua importância, passando pela própria experiência de ser vacinado, em questões como se “foi tratado com gentileza?”, ou “os profissionais estão bem informados e aptos a responder a perguntas sobre a vacinação?”. Isso além de possíveis custos monetários, não monetários ou sociais do procedimento, entre eles se a vacina é gratuita, a perda de tempo com deslocamentos ou durante o processo, ou de dias de trabalho por possíveis efeitos colaterais, se a vacinação é obrigatória para o exercício profissional ou se a não adesão implica limitações para determinadas atividades, como viagens ao exterior, matrícula da criança em creches e escolas etc.

“A burocracia pode ser uma coisa muito boa quando é para comprar armas, mas muito ruim para a vacinação”, comparou.

Assim, listou Almeida, as soluções neste campo podem ser bem simples, como levar a vacinação às crianças e os adultos com campanhas nas próprias escolas ou locais de trabalho; impor burocracias, como a necessidade de preencher e registrar declarações ou justificativas, para pais que não queiram vacinar seus filhos; e criar dificuldades ou restrições sociais para quem se recusa a se vacinar, como a proibição de frequentar alguns espaços ou eventos, o que, na opinião do diretor executivo do IQC, é mais efetivo e menos polêmico do ponto de vista legal do que tornar a vacinação obrigatória.

Estas últimas medidas têm uma relação direta com os fatores sociais que também podem servir de empecilhos ou incentivos à vacinação. Desta forma, apontou o diretor executivo do IQC, é necessária uma atenção especial às influências sociais que venham a afetar a decisão, incluindo desde as “normas sociais”, isto é, crenças sobre o que outros em seu grupo social fazem, ou o que aprovam e desaprovam, às narrativas predominantes na mídia que podem distorcer a percepção das pessoas sobre o que a maioria acredita e faz, e as redes sociais, os familiares, amigos, profissionais de saúde e outros com quem os indivíduos interagem, bem como as fontes de informação que consultam.

Neste ponto, indicou Almeida, ganham importância iniciativas como campanhas de informação e esclarecimento da população que reforcem a percepção da vacinação como algo positivo, destacando as normas sociais em seu apoio e aproveitando o papel dos profissionais de saúde neste processo, além de usar membros confiáveis da própria comunidade para ecoar e amplificar o discurso a favor da vacinação, como já havia sido destacado por Firestein em sua apresentação.

Por fim, o diretor executivo do IQC elencou intervenções que trabalhem aspectos comportamentais e afetem as próprias motivações pessoais em se vacinar, que geralmente envolvem uma combinação de fatores como o risco percebido e a gravidade da infecção, a confiança nas vacinas, valores e emoções e incentivos sociais, e mesmo financeiros, à vacinação. Assim, se por um lado a pessoa julgar como baixo o risco de se infectar ou desenvolver doença grave ela pode ficar menos propensa a se vacinar, por outro ela também pode entender a situação como de grande perigo, se não a si, a pessoas próximas e mais vulneráveis, levando ao medo, preocupação e arrependimento antecipado, todos sentimentos associados à intenção de aceitar a oferta de vacinação.

“O arrependimento antecipado é uma ferramenta que funciona assustadoramente bem, ainda mais se enfatizarmos os benefícios sociais da vacinação para além de uma decisão pessoal, mas que também protege outros na comunidade, familiares e amigos”, destacou Almeida.

Após um breve intervalo, foi a vez da presidente do IQC fazer sua palestra, em que recapitulou a história da desinformação sobre as vacinas e como isto se desenvolveu em um movimento organizado e lucrativo, apontou as falácias mais usadas pelo discurso antivacina e indicou estratégias para as identificar e se contrapor a elas, incluindo debunking (desmascarar suas mentiras), prebunking (alertar e educar sobre suas táticas com ferramentas de inoculação psicológica) e técnicas de debate. Natalia Pasternak lembrou que a desconfiança sobre as vacinas não é um fenômeno recente, acompanhando a história de seu desenvolvimento desde que foram propostas pela primeira vez como arma na luta contra a varíola pela aristocrata e escritora inglesa Mary Wortley Montagu ainda no início do século 18, décadas antes de o médico britânico Edward Jenner proceder com suas inoculações com o vírus da varíola bovina.

“A hesitação vacinal vem desde o surgimento da primeira vacina, considerada uma má ideia pelos próprios médicos da época, que antes da teoria dos germes preferiam tratar doenças com sangrias e laxativos”, contou.

Mas mesmo provada a eficácia e utilidade do método, a vacinação continuou a enfrentar resistências, muito em razão de falhas na comunicação em torno de episódios de eventos adversos envolvendo imunizantes, já que são dos poucos procedimentos da medicina moderna que têm como alvo indivíduos saudáveis. A presidente do IQC deu como exemplos disso o que ficou conhecido como “Incidente Cutter”, em que dezenas de crianças acabaram desenvolvendo poliomielite após receberem a vacina Salk de lotes em que o vírus não foi adequadamente inativado pelo laboratório na década de 1950, e a polêmica em torno da vacina DTP (difteria, tétano e tosse convulsa) no Reino Unido entre as décadas de 1970 e 1980, fruto de casos mal explicados, e investigados, de distúrbios neurológicos em crianças que teriam recebido o imunizante.

Segundo a presidente do IQC, episódios como estes ajudaram a alimentar um clima de desconfiança em torno das vacinas que atingiu seu ápice com a fraude perpetrada pelo ex-médico britânico Andrew Wakefield, cujo estudo de 1998 que falsamente associou a vacina tríplice viral a casos de autismo ainda hoje é citado por ativistas antivacina como “prova” dos “perigos” dos imunizantes.

“Precisamos aprender a comunicar estes erros e o que a gente aprendeu com eles sem achar que o público é idiota”, defendeu Pasternak. “E não podemos confundir comunicar com manipular. Por isso é importante sermos absolutamente transparentes e honestos nesta comunicação. Principalmente vocês, médicos, já que a comunicação que fazem no consultório deve passar muito mais confiança e credibilidade do que qualquer informação vinda de um youtuber, mesmo que ele tenha milhões de seguidores”.

Exposto como fraudulento e finalmente retratado – isto é, removido da literatura científica – em 2010, o estudo de Wakefield serviu de base para a presidente do IQC ilustrar aos participantes do curso a primeira das muitas falácias usadas pelos adeptos do movimento antivacinas em seu discurso negacionista que eles aprenderam a identificar e combater no evento. Não mais podendo se apoiar nos supostos resultados do trabalho do ex-médico britânico (em razão da fraude e da negligência com os pacientes participantes do estudo, Wakefield teve sua licença para clinicar cassada no Reino Unido no mesmo ano de 2010), eles passaram a apontar o tiomersal – um sal de mercúrio usado como conservante em vacinas – como possível causador de problemas. E quando esta desinformação também foi desmistificada, passaram a acusar outros componentes ou tecnologias usadas na fabricação de imunizantes de perigosos, num caso típico do que é conhecido como “alvo móvel”.

“O negacionismo é uma narrativa fácil porque acontece em cima de mentiras. A pessoa pode falar o que quiser”, disse Pasternak. “Já nós somos limitados pela ética e pela verdade, pela obrigação de dizer o que sabemos e o que não sabemos. Por isso é importante ver o que a gente tem na literatura sobre como comunicar a ciência e falar com um negacionista, como desmentir informações falsas,  sem cair nas armadilhas de ser autoritário, arrogante e até de dar palco para maluco”.

Para isso, a presidente do IQC indicou seguir alguns parâmetros básicos: como e o quê comunicar, isto é, as evidências científica e a linguagem utilizadas; quando comunicar, ou seja, a situação e se aquela peça de desinformação deve ser abordada; por quem esta comunicação deve ser feita; e, também muito importante, como escolher quais questões abordar, diferenciando controvérsias verdadeiras dentro da ciência das falsas, procurando não se engajar em discussões e debates que só serviriam para “legitimar” o discurso negacionista, e só fazendo isso se a falsa controvérsia estiver impactando a opinião pública sobre a questão.

“A cloroquina no tratamento da COVID-19, por exemplo, nunca foi uma controvérsia científica verdadeira, já que não havia mecanismo factível de ação. Mas ainda assim ela teve que ser testada contra a doença porque em um determinado momento ela se tornou uma controvérsia legitimada pela opinião pública. Fez-se tanto barulho em torno da cloroquina que chegou o momento que não tinha mais outra maneira a não ser fazer um teste duplo-cego randomizado controlado para provar o que já se sabia, que ela tinha pouca plausibilidade biológica de dar certo no tratamento da COVID-19”, citou.

Pasternak seguiu então para diferenciar informações incorretas (misinformation, em inglês) de desinformação (disinformation, também em inglês) – uma mentira programada, um conteúdo criado para deliberadamente para enganar as pessoas, seja por motivos financeiros, políticos, ideológicos, religiosos ou outros -, desvendar algumas das táticas usadas por esta última para este fim e como rebatê-las, usando estratégias como a que ficou conhecida como “sanduíche de verdade”. Nesta, um mito é desconstruído primeiro apresentando o fato, depois alertando e explicando sua distorção pelo discurso negacionista para finalizar novamente com o fato, numa prévia do que seria uma sessão de exercícios liderada por Luiz Almeida, coordenador de mídias do IQC, ao final do curso.

Posteriormente, a presidente e o diretor executivo do IQC participaram de uma sessão de debates com os cerca de 50 médicos que participaram do evento. Nas discussões, entre outros assuntos, o perigo e o prejuízo da desinformação quando ela vem de profissionais de saúde ou cientistas, como visto durante a pandemia de COVID-19 – ao que Pasternak recomendou deixar de lado o corporativismo e reagir com o que Edzard Ernst, estudioso das práticas da medicina dita “alternativa”: “aponte e dê nome ao charlatão” –, e o que fazer quando ela vem de autoridades, como também visto durante a pandemia no Brasil nas declarações do presidente Jair Bolsonaro e outros integrantes de seu governo.

“Torna nosso trabalho muito mais difícil e necessário”, resumiu Pasternak.

Depois de um intervalo para almoço, fechando as palestras do dia, Ricardo Machado, coordenador de comunicação da SBIm, falou sobre o papel dos médicos e das sociedades médicas no combate à desinformação, destacando a posição dos profissionais de saúde como formadores de opinião, principalmente em questões como a decisão de tomar uma vacina.

Diante disso, Machado apresentou dados preocupantes sobre a ampla circulação de desinformação mesmo dentro desta comunidade, como na The Medical Network, uma espécie de rede social que reúne cerca de 2 milhões de integrantes, entre eles 80% dos médicos dos EUA em que se espalhou a informação falsa contra as vacinas da COVID-19. Problema que cresce tendo em vista outras pesquisas sobre os hábitos de consumo de informações sobre ciência pela população e a alta confiança de que médicos e cientistas têm junto ao público.

Terminando as atividades do dia, a presidente do IQC voltou para detalhar as táticas usadas pela desinformação e como identificá-las, tendo como base uma “taxonomia” de falácias e outros recursos argumentativos originalmente desenvolvida pelo cientista australiano John Cook para ajudar a combater o negacionismo climático, mas que também serve para qualquer outro tipo de negacionismo.

São estratégias como o uso de falsos especialistas; falácias lógicas como a má representação da realidade (como confundir correlação com causalidade), ambiguidades, falsas analogias e ataques ad hominem; expectativas impossíveis, como exigir que qualquer procedimento seja “100% seguro e 100% eficaz”, e os alvos móveis; cherry picking, isto é, escolher comunicar apenas os dados ou fatos que corroborem sua visão, como se ater a evidências anedóticas; e o recurso a teorias da conspiração, incluindo reclamações de “perseguição” e suspeitas infundadas de propósitos malignos ou nefastos.

De posse desta “lista”, os participantes do curso foram convidados a realizar um breve exercício para aplicar os conhecimentos adquiridos. Escolhendo um fragmento de discurso de desinformação, como a que afirma que as vacinas para COVID-19 ainda são “experimentais”, eles colocaram em prática a técnica do “sanduíche de verdade”, afirmando que elas são seguras e foram amplamente testadas e aprovadas pelas autoridades sanitárias, o que faz da afirmação uma falácia, comprovada pelas milhões de vidas salvas ao redor do planeta graças ao seu uso.

“Esta é das melhores estratégias inventadas até hoje para desmentir bobagens”, resumiu Pasternak. “Se o negacionista é o disseminador de desinformação, o hesitante vacinal é a vítima, e é com esta pessoa que a gente precisa falar, ouvir com atenção para entender porque e como chegou ao ponto de questionar a validade da vacinação, criar uma empatia e aproveitar esta relação para acolher e responder suas dúvidas. E não deixem que este conhecimento fique por aqui. Passem este material para frente”, exortou a presidente do IQC.