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Presidente do IQC fala sobre negacionismo na UFRJ

Natalia Pasternak traçou paralelos entre a negação de conhecimentos e fatos na ciência e nas humanidades em debate promovido pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da universidade

O negacionismo não atinge só as ciências conhecidas como “duras”, como a física e a biologia, e também é um problema crescente nas humanidades, como as ciências sociais e a história. E foi com isso em mente que a presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC), Natalia Pasternak, participou, em 28 de julho de 2022, de debate promovido pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Em mesa intitulada “Produção de Ciência na Era do Negacionismo” e mediada por Michel Gherman, professor dos Departamentos de História e Sociologia da universidade, Pasternak apresentou uma definição do fenômeno e traçou um paralelo entre as ferramentas e estratégias utilizadas por seus adeptos para tentar negar fatos e conhecimentos revelados por diferentes campos de estudo. Segundo a presidente do IQC, embora a negação seja uma atitude comum do ser humano diante de uma realidade incômoda, ela se torna deletéria quando sai do nível pessoal para o social.

“Negacionismo é uma mentira coletiva, uma mentira que foi programada para enganar por motivos políticos, religiosos, ideológicos ou financeiros”, explicou. “Então existe um mercado de venda de ilusões em diversas áreas do conhecimento para enganar as pessoas, negar as evidências que estão diante de nosso nariz”.

Assim, o negacionismo não é um fenômeno novo, embora tenha ganho destaque no imaginário popular nesta pandemia. Uma amostra disso, lembrou a presidente do IQC, é a própria origem do termo, cunhado nos anos 1980 para se referir a grupos que negavam a realidade do Holocausto, o massacre de milhões de judeus pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

“O termo negacionismo vem da história, não da ciência, que se aproveitou dele na forma de negacionismo científico. Ele veio de historiadores do Holocausto, que antes de nós passaram por esta triste experiência de enfrentar pessoas que se organizaram em movimentos para questionar fatos e evidências de um acontecimento real da história”, contou.

Mas embora possa afetar diferentes áreas do conhecimento, o negacionismo, seja histórico ou científico, lança mão de diversas ferramentas comuns para atingir seus objetivos, algumas das quais Pasternak exemplificou. A primeira delas é a distorção parcial da realidade, que muitas vezes hoje toma forma na frase “não nego tal coisa, mas…”, numa estratégia que busca atrair a atenção do público a seus argumentos sem explicitá-los como completamente falaciosos e descolados dos fatos, quer se refira ao Holocausto, à escravidão ou ao racismo ou a minimizar uma doença que também matou milhões de pessoas no espaço de poucos anos.

“Nada de bom pode vir depois de um ‘mas’ destes, mas ele torna mais fácil convencer as pessoas em torno de uma mentira que não é bem-vista socialmente. Coisas como ‘não nego que tenha havido escravidão, mas será que não era uma coisa normal naquela época?’, sem considerar que a escravidão é hedionda sob qualquer aspecto”, indicou a presidente do IQC. “Usar este ‘mas’, esta vírgula, acaba atraindo as pessoas. E pode parecer algo inocente, mas é negacionismo, é perigoso, e mata. Na pandemia, o atraso na compra de vacinas em função do negacionismo custou a vida de pessoas. Não é só uma questão de quem está certo e quem está errado. É uma questão social e de preservar direitos humanos básicos”.

Outra estratégia comum do negacionismo, apontou Pasternak, é usar detalhes fora do contexto para tentar minar a credibilidade dos fatos. Novamente tomando o negacionismo do Holocausto como exemplo, a presidente do IQC lembrou que o gás usado nos campos de extermínio nazistas também era utilizado como desinfetante de ambientes, que deveriam ficar desocupados por 24 horas após sua aplicação.

“Os negacionistas do Holocausto pegam este detalhe então para falar coisas como: ‘se o gás foi usado para matar pessoas, como que os nazistas entravam nas câmaras para se livrar dos corpos logo depois?’”, citou. “E aí a gente tem que explicar que numa casa, num ambiente doméstico, existem vários detalhes, como sofás, cortinas, tapetes e um monte de outros locais que o gás pode ficar impregnado, e se você colocar pessoas ou animais lá, elas podem se intoxicar. Por isso a indicação na bula do desinfetante diz para deixar o ambiente aberto e ventilando durante 24 horas. O que é muito diferente de um galpão que foi construído com o único objetivo de matar pessoas, que não tem tapetes, nem cortinas, nem sofás, nem vai ser ocupado por famílias com animais de estimação e crianças pequenas. Isso sem falar do detalhe de que os registros históricos mostram que os oficiais nazistas entravam nestes ambientes de máscara”.

Também muito comum é uma estratégia conhecida como alvo móvel, em que o negacionista, ao ver destruídos suas afirmações ou argumentos iniciais, muda o alvo de suas críticas. Um caso conhecido disso na ciência, contou a presidente do IQC, é a associação de vacinas com autismo que alimentou o movimento antivacinal no mundo nas últimas décadas.

“Foi demonstrado que este trabalho era falso, que essa conclusão era uma fraude, uma mentira”, frisou Pasternak. “Então, como não dava mais para falar que vacinas causam autismo, os grupos antivacina mudaram o discurso e passaram dizer, por exemplo, que o meio das vacinas usa componentes tóxicos, como mercúrio, que causaria sequelas no organismo. E isso dá trabalho para os cientistas de novo, que precisam ir lá e demonstrar que é um uso controlado, que é um sal tipo de mercúrio que se usa diferente daquele que tem no termômetro, que ele é seguro, as concentrações são mínimas e isso foi provado por estudos controlados. E, na verdade, pouquíssimas vacinas usam. E então eles partem para o próximo componente, e mais outro. O alvo móvel é um verdadeiro pesadelo para os cientistas, porque é algo que não acaba”.

Por fim, a presidente do IQC destacou a estratégia mais comum dos negacionistas, a falsa polêmica, com a qual buscam apresentar como duvidosos fatos e conceitos para os quais já existe um consenso científico bem estabelecido e estruturado e usam como armadilha para atrair os cientistas para o debate, revertendo o ônus da prova.

“O problema é que quando você aceita debater com um negacionista, ele já ganhou, pois conseguiu gerar uma falsa equivalência e se colocar no mesmo patamar da ciência”, alertou Natalia. “É importante entender que uma coisa é estar presente no debate público, outra é aceitar estar com uma pessoa que não está interessada num debate”.

Por isso, acrescentou, deve-se escolher com cuidado o local de um eventual debate com um negacionista, dando como exemplo o uso da cloroquina no suposto tratamento da COVID-19.

“O lugar do debate sobre a cloroquina não é na televisão ou canal de YouTube, mas na literatura científica. Ou seja, se você tiver evidências que a cloroquina funciona contra a COVID-19, que publique e as coloque sob escrutínio dos pares. O fórum para um debate como este é nas publicações científicas, não na TV”, resumiu a presidente do IQC.

Outro ponto ao lidar com negacionistas, indicou Pasternak, são os termos deste eventual debate, já que muitas vezes eles se apropriam da incerteza natural da ciência para tentar alimentar sua falsa polêmica

“A ciência é baseada em perguntas, então questionar é bom, desde que a pessoa com quem se debata esteja disposta a mudar de ideia diante das evidências apresentadas”, disse. “Se não for assim, você não está lidando com um questionador, mas um negacionista”.

Assim, a presidente do IQC defendeu que os cientistas e comunicadores da ciência fiquem atentos em diferenciar os negacionistas pura e simplesmente de suas vítimas, que podem ter dúvidas legítimas diante da barragem de desinformação que eles lançam na sociedade.

“Precisamos acolher estas vítimas do negacionismo, ouvir suas dúvidas e esclarecer. São pessoas como a mãe que tem medo de vacinar seus filhos porque ouviu em algum lugar que vacinas podem fazer mal. São com estas pessoas que a gente vai conversar e que temos que aprender como fazer para que elas mudem de ideia”, finalizou.