BOLETIM SCIENCE POLICY #01

Edição Abril/2026
Por Rafael Saravalli e Isadora Assunção

Science Policy, o que é isso?

Se você está lendo,

Science Policy não é um termo fácil de traduzir. O termo policy possui um cognato em português que é falso (política), embora seu significado não seja completamente distante. Por isso, frequentemente tentamos traduzi-lo de forma literal, perdendo nuances importantes.

O termo policy refere-se principalmente a um conjunto de diretrizes institucionais e estratégicas que orientam decisões. Ele tem uma dimensão normativa e decisória, estando relacionado, sem haver uma coincidência exata, ao termo management, que se refere à execução prática dessas diretrizes.

Quando aproximamos o termo policy de Science, à primeira vista, a tradução pode parecer simples: seriam as regras, decisões e estratégias ligadas à ciência. Contudo, sem contexto adequado, podemos interpretar equivocadamente como uma metodologia científica ou um conjunto rígido de regras para buscar conhecimento.

Na verdade, Science Policy refere-se ao conjunto de tópicos relacionados às decisões estratégicas sobre a ciência, incluindo alocação de recursos para pesquisa, definição de prioridades científicas e interação entre ciência e sociedade. Trata-se do relacionamento entre o conhecimento científico e os processos decisórios institucionais e sociais, refletindo uma interação bidirecional em que a ciência informa políticas sociais, enquanto estas definem os rumos da ciência.

No Brasil, este tema ainda é pouco sistematizado e explorado, havendo quase nenhum acompanhamento do que ocorre e o que está para ocorrer. Quase sempre ficamos com o “ocorreu”. 

Para suprir esta falta e estimular um debate sobre os rumos da ciência, como um empreendimento social, o Instituto Questão de Ciência propõe esta Newsletter semanal, com resumos das principais notícias no mundo sobre Science Policy.

Procuraremos, na medida do possível, introduzir conceitos e estabelecer análises do cenário que vivemos, bem como explorar as consequências do que se passa no exterior nas políticas públicas brasileiras. Como uma primeira iniciativa, sabemos que nossa missão precisará ser aprimorada, e muito, por isso, pedimos todo comentário, sugestão ou crítica seja enviado para o e-mail: iqc@iqc.org.br

Os últimos meses confirmam uma mudança importante no debate internacional sobre science policy. A ciência continua sendo tratada como motor de desenvolvimento, inovação e formação de capacidades, mas passa a ser também cada vez mais enquadrada por preocupações com segurança, soberania, governança e competição geopolítica.

Nos Estados Unidos, cresceram as tensões em torno da circulação de pesquisadores estrangeiros, da supervisão sobre vínculos internacionais universitários e dos limites entre abertura científica e segurança nacional. Na Europa, por sua vez, observa-se um movimento de resposta institucional mais coordenado, combinando diplomacia científica, research security, disputa por talentos e debate sobre a arquitetura da política de inovação. No Brasil, as notícias recentes mostram esforços de fortalecimento do sistema nacional de CT&I, com foco em inteligência artificial, fixação de pesquisadores, cooperação regional, inclusão e priorização estratégica do fomento.


SAIBA MAIS

Veja nossa seleção de leituras e referências sobre liberdade científica, research security, financiamento e recursos humanos, braindrain e outros temas

1. Integridade científica

  • IA e integridade científica: Quando o chatbot inventa artigos
    Artigo da Science chama atenção para um problema crescente no uso de ferramentas de IA na pesquisa: a produção de referências inexistentes com aparência plenamente acadêmica. O caso relatado mostra como sistemas generativos podem fabricar títulos, resumos e citações falsas de forma convincente, recolocando no centro do debate temas como verificação, responsabilidade e integridade científica.

    Link: https://www.science.org/content/article/cite-unseen-when-ai-hallucinates-scientific-articles 

1. 2 Liberdade científica e research security

  • NIST propõe restringir permanência de pesquisadores estrangeiros
    O National Institute of Standards and Technology (NIST), nos Estados Unidos, avançou com proposta para limitar o tempo e o acesso de pesquisadores estrangeiros a seus laboratórios. A medida gerou forte reação por potencialmente afetar cientistas, estudantes e pós-doutorandos em áreas estratégicas. O episódio evidencia a crescente securitização da ciência e as tensões entre research security, abertura científica e competitividade nacional.

    Link: https://www.science.org/content/article/nist-moves-restrict-foreign-scientists-its-labs? 

2. Brain drain e disputa por talentos

3. Governança da pesquisa e inovação

4. Notícias sobre o Brasil


De forma geral, as notícias recentes sugerem que a science policy entrou em uma fase mais abertamente geopolítica. A ciência segue sendo tratada como vetor de desenvolvimento, mas também como ativo estratégico, objeto de disputa institucional e instrumento de soberania. Abertura, circulação de talentos e cooperação internacional permanecem centrais, mas convivem cada vez mais com exigências de segurança, reciprocidade, priorização e controle.


PROJETOS DE LEI

Ao final desta edição, apresentamos uma tabela com projetos de lei em tramitação. Todos abordam temas relevantes para a governança científica, tais como financiamento, relações com fundações de apoio, regime previdenciário de bolsistas e participação feminina em carreiras científicas. Convidamos nossos leitores a sugerir projetos de lei que mereçam atenção, sejam eles federais, estaduais ou mesmo municipais.

Leia mais

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