Cinco anos após o fim da pandemia de covid-19, as menções a eventos online no Lattes seguem quatro vezes acima do nível de 2019.
Por Jesús P. Mena-Chalco

Este é o primeiro post da série “A ciência brasileira vista pelos seus dados”, de Jesús P. Mena-Chalco, professor e pesquisador da Universidade Federal do ABC (UFABC). Os conteúdos vão sair semanalmente no Observatório de Políticas Científicas do IQC. Para acompanhar, acesse nosso site ou assine a newsletter.
Foi quase ontem. Em 2020, a circulação de pessoas foi abruptamente restringida e muitas atividades acadêmicas precisaram ser reorganizadas em pouco tempo.
Aulas, reuniões, bancas e eventos passaram a utilizar intensamente ferramentas que até então ocupavam um espaço bem menor no cotidiano acadêmico. O virtual deixou de ser uma possibilidade periférica e, durante algum tempo, tornou-se parte central da maneira como nos encontrávamos.
Nesta primeira nota da série “A ciência brasileira vista pelos seus dados”, aqui no IQC, gostaria de olhar para uma dessas transformações: a participação de pesquisadores em eventos científicos.
A pergunta que gostaria de explorar é: depois da ruptura provocada pela pandemia, a participação em eventos voltou ao padrão observado antes de 2020?
Para explorar essa questão, utilizei informações da seção Participação em Eventos dos Currículos Lattes, preenchida pelos próprios pesquisadores. A base analisada contém aproximadamente 59,5 milhões de registros de participação, acumulados ao longo dos anos.
Para esta análise, concentrei-me no período de 2017 a 2024 e o dividi em três momentos: 2017-2019, como referência anterior à pandemia; 2020-2021, como período de ruptura; e 2022-2024, que aqui chamo simplesmente de período de retomada.
Em 2019, 1,7% dos pesquisadores com participação registrada naquele ano apresentavam pelo menos um sinal explícito de virtualidade. Em 2020, eram 38,6%. Ao mesmo tempo, a proporção de registros sem preenchimento do campo Cidade passou de cerca de 5% para 27%. Em outras palavras, justamente quando aumentavam os sinais de participação virtual, a informação sobre uma localização física passou a aparecer com bem menos frequência.

É importante não interpretar essa figura além do que ela permite. Um campo Cidade vazio não demonstra, sozinho, que o evento foi virtual. Da mesma forma, a presença de uma cidade não significa que o pesquisador necessariamente se deslocou até ela. O que podemos afirmar é mais simples: a relação entre o registro da participação e o registro de um lugar mudou de forma muito acentuada em 2020.
E há outro aspecto interessante, como por exemplo, os sinais de virtualidade diminuíram bastante nos anos seguintes, mas não desapareceram. Em 2024, 7,1% dos pesquisadores ativos ainda apresentavam pelo menos um registro com sinal explícito de virtualidade, proporção bem acima dos 1,7% observados em 2019.
Há, porém, uma dificuldade em comparar anos diferentes. A Plataforma Lattes cresce, sua população muda e a atualização dos currículos depende das próprias pessoas. Um aumento agregado poderia refletir, pelo menos em parte, mudanças na composição da base.
Por isso fiz uma segunda análise acompanhando as mesmas 49.809 pessoas, todas com participação registrada em cada um dos anos entre 2017 e 2024.

Para mim, este é o resultado mais interessante.
Durante 2020-2021, essas mesmas pessoas passaram de 5,43 para 7,45 registros de participação por pesquisador e ano, um aumento de aproximadamente 37%. Ao mesmo tempo, a média de cidades registradas permaneceu praticamente igual: 2,52 antes da pandemia e 2,51 durante a ruptura. O número médio de países também pouco mudou, de 1,20 para 1,18.
Os dados, portanto, não sugerem uma expansão equivalente da geografia registrada. Foi possível aumentar fortemente a quantidade de participações registradas sem aumentar, na mesma proporção, o número de lugares associados a essas participações.
Também não encontrei evidência de uma explosão da participação associada ao exterior. No painel das mesmas pessoas, esse indicador passou de 15,05% antes da pandemia para 13,72% em 2020-2021 e chegou a 15,10% em 2022-2024. O país informado no registro, vale lembrar, não deve ser interpretado como evidência de viagem realizada pelo participante.
Talvez uma das heranças mais interessantes daquele período tenha sido justamente tornar mais evidente algo que antes parecia quase inseparável: participar de um encontro científico e estar fisicamente no local onde ele ocorre não são necessariamente a mesma coisa.
Isso não significa que o Virtual substitua o Presencial, nem que produza os mesmos efeitos. Os dados analisados aqui não permitem responder a isso. Mas permitem formular algumas perguntas.
Que tipos de interação funcionam bem a distância e quais dependem da convivência presencial? Em que situações o formato híbrido amplia o acesso? Quais são seus custos organizacionais e tecnológicos? Quem se beneficia mais da possibilidade de participação remota? E quais soluções desenvolvidas durante um período excepcional ainda merecem ser estudadas para uma possível incorporação à organização da atividade científica?
Não podemos esquecer. O que aprendemos naquele período e quais dessas possibilidades ainda vale a pena estudar.
A pandemia tornou muito visível que um congresso pode estar associado a uma cidade sem que todos os seus participantes precisem estar fisicamente nela. Entender as consequências dessa separação é uma questão que permanece aberta.
Nota técnica:
Os dados correspondem a registros de participação em eventos declarados nos Currículos Lattes. Um registro não corresponde necessariamente a um evento único: os nomes dos eventos não são padronizados e uma mesma pessoa pode registrar mais de um item relacionado a uma mesma edição. Por isso, a unidade utilizada neste texto é deliberadamente denominada “registro de participação”, e não “evento”.
Um registro foi classificado como contendo sinal explícito de virtualidade quando foram identificadas expressões associadas ao formato virtual em campos como Título, Evento, Instituição ou Cidade. A ausência desses sinais não permite classificar um registro como presencial. A análise de sensibilidade com uma definição mais conservadora produziu o mesmo padrão geral de ruptura, o que reduz a dependência dos resultados de uma única regra de classificação.
Finalmente, a tabela principal utiliza um painel contínuo de 49.809 pesquisadores, todos com participação registrada em cada ano de 2017 a 2024. Esse recorte ajuda a reduzir o efeito do crescimento da Plataforma Lattes e das mudanças na composição da população observada. Ainda assim, os dados dependem do preenchimento e da atualização dos próprios currículos e, portanto, não devem ser interpretados como um censo exaustivo de todos os eventos científicos ou de todas as participações ocorridas no período.
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