Autorretrato acadêmico: analisamos 5,5 milhões de minibios na plataforma Lattes
Quanto mais a alta a titulação, mais longo é o resumo. Mas não é só isso: o momento da carreira mexe com o que cada pesquisador escolhe destacar sobre a própria trajetória.
Publicado em 21/09/2026 - 17h02
por Jesús P. Mena-Chalco
Conta uma antiga parábola que várias pessoas, ao tocar partes diferentes de um elefante, produziram descrições muito distintas do mesmo animal. Cada descrição captava algo verdadeiro, mas nenhuma dava conta do todo. Uma trajetória profissional também dificilmente cabe em poucas linhas. Quando alguém escreve uma minibiografia, precisa escolher: formação, profissão, experiência, posição atual, realizações, interesses. O que aparece nesse pequeno espaço, e o que fica de fora, constitui uma forma de autoapresentação.
O Currículo Lattes oferece uma oportunidade pouco comum para observar essas escolhas em grande escala. Em meio a dezenas de campos estruturados, o resumo do currículo é um dos poucos espaços em que cada pessoa pode decidir, em texto livre, como deseja se apresentar.
Neste terceiro texto da série, quis explorar uma pergunta: o que as pessoas escolhem destacar sobre si mesmas em suas minibiografias e como essa escolha varia conforme a formação acadêmica?
Para isso, analisei 9,8 milhões de currículos. Cerca de 5,5 milhões continham uma minibiografia. Agrupei os currículos segundo a maior titulação registrada: sem titulação registrada, graduação, especialização, mestrado e doutorado. A primeira diferença aparece antes mesmo de lermos qualquer palavra. Entre os currículos sem titulação registrada, somente 34,5% possuem minibiografia. Entre os graduados, são 55,5%; entre especialistas, 86,5%; mestres, 91,4%; e doutores, 93,5%.
E não muda apenas a decisão de escrever. Muda também quanto se escreve. A mediana passa de 33 palavras entre os currículos sem titulação registrada para 45 entre graduados, 66 entre especialistas, 86 entre mestres e 117 entre doutores. A figura a seguir resume esse movimento. Quanto maior a formação registrada, mais frequente é a minibiografia e, em geral, maior o espaço dedicado a ela.
Mas havia um problema óbvio nessa comparação. Se os doutores escrevem textos maiores, naturalmente têm mais oportunidades para mencionar pesquisa, ensino, gestão ou internacionalização. Para saber se mudava realmente o que era escolhido para aparecer, era necessário comparar textos de tamanhos semelhantes.
Foi isso que fiz na etapa seguinte. As minibiografias foram separadas por faixas de comprimento e os resultados foram padronizados, de forma que graduados e doutores fossem comparados como se tivessem a mesma distribuição de tamanho textual.
O resultado, para mim, é a parte mais interessante da análise.
Mesmo depois desse ajuste, algumas dimensões permanecem muito mais presentes nas minibiografias dos doutores. A maior diferença aparece em ensino e formação de pessoas: +26,1 pontos percentuais. Depois vêm atuação, pesquisa e temas (+11,2), posição profissional (+9,5) e credenciais e formação (+9,3). Internacionalização também aparece mais entre doutores, embora seja menos frequente em termos absolutos (+2,8 pontos).
A seguinte figura permite enxergar também o outro lado. Algumas dimensões aparecem relativamente mais nos textos dos graduados: trajetória e experiência profissional, extensão e atuação pública, mercado e setor privado e certos marcadores textuais que classifiquei como “sinais de empregabilidade”. É importante não confundir esse último termo com ser mais ou menos empregável. Estamos falando apenas de expressões presentes no texto, por exemplo, referências a competências não técnicas, idiomas ou objetivos profissionais, e não de uma medida de empregabilidade.
A leitura que faço desses resultados é menos a de uma simples acumulação de informações e mais a de uma reorganização da narrativa profissional. Com o avanço da formação, ganham espaço as credenciais, a posição ocupada, a pesquisa e, sobretudo, o ensino e a formação de outras pessoas. Outros elementos, embora continuem fazendo parte da trajetória, deixam de ocupar o mesmo lugar relativo na apresentação.
Naturalmente, é preciso alguma cautela. Esta não é uma análise longitudinal: não acompanhei as mesmas pessoas desde a graduação até o doutorado. Portanto, não se pode afirmar que obter um título causa uma mudança na maneira de escrever. O que os dados mostram é uma associação muito consistente entre formação registrada e forma de autoapresentação. Também não devemos interpretar a ausência de um tema como ausência daquela experiência. Uma minibiografia é, por definição, uma seleção.
Talvez seja justamente aí que esteja sua utilidade.
Quando avaliamos pesquisadores, profissionais ou grupos, costumamos tratar textos curriculares como se fossem pequenos espelhos da trajetória. Eles não são. São recortes. E os critérios usados para fazer esses recortes parecem variar de forma sistemática conforme a posição ocupada na trajetória acadêmica.
Para quem trabalha com avaliação, políticas de ciência, seleção de pessoas ou construção de indicadores, isso é uma caracterização importante. Se um sistema (humano ou automatizado) utiliza minibiografias para caracterizar indivíduos, não deveria interpretar a presença ou ausência de certas palavras como se fossem medidas neutras de experiência, competência ou importância. Parte do que encontramos nesses textos reflete também convenções de apresentação e modos distintos de contar a própria trajetória.
Em poucas linhas, não contamos tudo o que somos. Escolhemos o que consideramos importante dizer que somos.
Nota técnica
A análise foi realizada a partir de 9.813.693 Currículos Lattes, integrando informações estruturadas do currículo com o campo textual Resumo-CV, utilizado aqui como uma forma de autoapresentação profissional. Desse universo, 5.507.620 currículos possuíam minibiografias não vazias e compuseram o corpus textual efetivamente analisado. O processamento foi realizado computacionalmente, sem uso de modelos generativos de linguagem.
Inicialmente, os textos passaram por procedimentos de normalização e caracterização básica, incluindo extensão em palavras, forma de abertura e alguns traços de escrita. Em seguida, foram identificadas menções a diferentes dimensões da trajetória acadêmica e profissional, como formação, posição profissional, pesquisa, ensino, gestão, reconhecimento, internacionalização, atuação no mercado, extensão e inovação.
A identificação dessas dimensões foi baseada em marcadores lexicais e padrões contextuais definidos previamente, combinando palavras, expressões e construções recorrentes nas minibiografias. A estratégia foi deliberadamente conservadora: em vez de tentar interpretar todo o conteúdo de cada texto, buscou-se reconhecer sinais textuais relativamente inequívocos de cada dimensão.
Por exemplo, uma referência a docência não foi inferida apenas pela presença da palavra “universidade”, mas por expressões associadas diretamente a atividades de ensino ou posição docente. Procedimento semelhante foi adotado para pesquisa, gestão, prêmios, experiência internacional e demais categorias.
Os padrões foram refinados por inspeção de amostras de ocorrências, incluindo casos positivos e negativos, de modo a reduzir classificações espúrias. O resultado, portanto, não corresponde a uma classificação semântica completa de cada minibiografia, mas a um conjunto de indicadores textuais de alta precisão que permitem comparações em grande escala.
As comparações foram realizadas principalmente segundo o nível de formação registrado no Currículo Lattes, sem titulação (C), graduação (G), especialização (E), mestrado (M) e doutorado (D), e, quando necessário, segundo grande área do conhecimento e recência de atualização do currículo. Um cuidado importante foi considerar que minibiografias mais longas possuem, por construção, maior probabilidade de mencionar diferentes aspectos da trajetória.
Por isso, parte das análises foi estratificada por faixas de extensão textual, permitindo verificar se as diferenças observadas permaneciam mesmo entre textos de tamanho semelhante. Esse procedimento ajuda a separar dois fenômenos distintos: escrever mais e escolher falar de coisas diferentes. Os resultados devem, portanto, ser interpretados como padrões de autoapresentação: a ausência de uma dimensão no Resumo-CV não significa ausência daquela atividade na trajetória do indivíduo, mas apenas que ela não foi escolhida para compor aquele pequeno espaço narrativo do currículo.
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