As mil jabuticabas da ciência brasileira – no sentido literal, não no figurado

As pesquisas sobre a fruta mais icônica do país mobilizam pessoas diferentes especialidades – e são um retrato de como a ciência “divide para conquistar” seus objetos de estudo.

Por Jesús P. Mena-Chalco

No Brasil, costumamos chamar de “jabuticaba” aquilo que parece existir apenas por aqui. A expressão serve para falar de peculiaridades nacionais, muitas vezes com certo estranhamento. Mas e quando levamos a palavra ao pé da letra? O que a ciência brasileira tem pesquisado sobre a fruta? Até onde chegam essas pesquisas quando deixamos de procurar apenas o nome da jabuticaba?

Fui atrás dessas perguntas na Plataforma Lattes. Reuni títulos de artigos em periódicos, trabalhos em eventos, capítulos e livros registrados entre 2000 e 2025. Ao todo, examinei cerca de 12,16 milhões de títulos. Comecei procurando diferentes maneiras de escrever jabuticaba, incluindo suas denominações científicas. A busca encontrou 1.478 registros, mas havia um problema: nem todos tratavam da fruta. Jaboticabal, por exemplo, também é o nome de um município, enquanto Jabuticabeira II designa um sítio arqueológico. Era preciso separar essas ocorrências das pesquisas sobre o fruto.

Depois de uma seleção que buscou excluir referências a outros assuntos e evitar repetições de títulos no mesmo ano, cheguei a 1.022 registros com títulos que indicam pesquisas relacionadas à jabuticaba ou à jabuticabeira. É sobre esse conjunto que trata a análise a seguir. Nele, encontrei 696 registros de artigos em periódicos (68%), 247 de trabalhos em eventos (24%), 67 capítulos e 12 livros completos. São produções registradas no Lattes, não necessariamente todos os estudos existentes sobre o assunto: uma pesquisa pode investigar a jabuticaba sem mencionar seu nome no título.

Uma primeira mudança aparece quando comparamos dois períodos de 13 anos. Entre 2000 e 2012, identifiquei 188 títulos relacionados à jabuticaba; entre 2013 e 2025, foram 834. Mas não foi apenas a quantidade que mudou. Os assuntos destacados nos títulos também se modificaram. As referências ao cultivo e à propagação passaram de 20,2% para 8,9% do conjunto de cada período. Em contrapartida, os termos ligados a compostos, pigmentos e extratos passaram de 27,1% para 47,1%, enquanto aqueles relacionados a cascas, secagem e subprodutos passaram de 12,2% para 39,7%.

Figura 1 – O que aparece nos títulos de pesquisas sobre jabuticaba? Comparação de assuntos identificados nos períodos de 2000-2012 e 2013-2025.

Esses assuntos não são exclusivos: um trabalho sobre compostos extraídos da casca da jabuticaba, por exemplo, pode aparecer em mais de um grupo. Também é importante observar que a menor participação relativa do cultivo não significa que as pesquisas sobre esse assunto desapareceram. Na realidade, identifiquei 38 títulos relacionados ao cultivo e à propagação no primeiro período e 74 no segundo. O que mudou foi o espaço ocupado pelos demais assuntos. A jabuticabeira continua sendo investigada, mas a atenção científica registrada nos títulos passou a contemplar, cada vez mais, seus compostos, suas propriedades e seus possíveis aproveitamentos.

Se os assuntos pesquisados se diversificaram, quem são os pesquisadores associados a esses trabalhos? Para responder, cruzei os registros das publicações com as informações disponíveis nos currículos da Plataforma Lattes. Identifiquei 2.005 currículos distintos relacionados às pesquisas sobre jabuticaba. As Ciências Agrárias continuaram sendo a grande área mais representada, mas sua participação relativa passou de 49,5%, nas publicações de 2000 a 2012, para 37,3% nas de 2013 a 2025. No mesmo intervalo, a participação das Engenharias passou de 3,1% para 6,4%.

Figura 2 – A composição das grandes áreas declaradas nos currículos associados às pesquisas sobre jabuticaba, segundo o período das publicações.

A diversidade fica mais evidente quando observamos as especialidades declaradas nos currículos associados às publicações mais recentes. Encontrei 470 pesquisadores vinculados à Ciência e Tecnologia de Alimentos, 178 à Química, 123 à Agronomia, 111 à Farmácia e 108 à Nutrição. São áreas bastante diferentes, mas que aparecem reunidas em torno de pesquisas sobre um mesmo fruto. Cabe lembrar que essas informações correspondem aos currículos coletados em 2026 e não necessariamente à área de atuação de cada pesquisador na época em que publicou seu trabalho.

Essa diversidade também aparece dentro das próprias publicações. Entre os 1.022 registros analisados, havia 670 com pelo menos dois currículos que informavam suas grandes áreas de atuação. Em 421 desses trabalhos (62,8%), os pesquisadores identificados pertenciam a grandes áreas diferentes. É um indício interessante de encontro entre especialidades. Entretanto, não basta para medir o grau de interdisciplinaridade dessas pesquisas: nem todos os autores possuem currículo identificado no conjunto analisado, e trabalhos com mais pesquisadores têm naturalmente mais oportunidades de reunir diferentes áreas.

Mas será que todas essas especialidades estudam os mesmos problemas? Os dados sugerem que não. Nas publicações com referências ao cultivo e à propagação, as Ciências Agrárias representam aproximadamente 58% da distribuição entre grandes áreas. Já nos trabalhos associados a ensaios biológicos, essa participação cai para 35%, enquanto Ciências da Saúde e Ciências Biológicas representam cerca de 22% e 19%, respectivamente. Nos estudos relacionados a cascas, secagem e subprodutos, as Engenharias chegam a aproximadamente 17%. Para essa comparação, cada publicação teve seu peso dividido entre as grandes áreas identificadas, evitando contar o mesmo trabalho integralmente várias vezes.

Figura 3 – Participação das principais grandes áreas do conhecimento nos diferentes assuntos científicos associados à jabuticaba. Os percentuais representam a distribuição fracionária das publicações entre as áreas identificadas. Participações minoritárias de outras grandes áreas não são apresentadas.

Até aqui, olhei para as pesquisas que mencionavam a jabuticaba. Mas fiquei com outra pergunta: será que os problemas investigados nesses trabalhos também aparecem em estudos sobre outras frutas brasileiras? Para explorar essa possibilidade, comparei o conteúdo de milhões de títulos científicos, procurando semelhanças entre pesquisas que não necessariamente mencionavam a mesma espécie. Encontrei aproximações envolvendo germinação, diversidade genética, extração de pigmentos, produção de alimentos, atividade biológica e secagem de cascas. A tabela a seguir apresenta alguns exemplos.

Tabela 1 – Exemplos de pesquisas sobre jabuticaba e trabalhos com problemas científicos próximos.

AssuntoExemplo sobre jabuticabaPesquisa relacionada em outro frutoPergunta compartilhada
GerminaçãoSementes de jabuticaba sob diferentes níveis de salinidade (2020)Sementes de maracujá sob estresse salino (2022)Como a salinidade afeta a germinação?
GenéticaDiversidade genética de jabuticabeiras e características dos frutos (2020)Variação genética de pequizeiros e características morfométricas dos frutos (2021)Como a diversidade genética se relaciona com os frutos?
CompostosOtimização da extração de antocianinas e fenólicos da jabuticaba (2019)Extração de antocianinas e fenólicos do açaí por métodos experimentais (2020)Como extrair e caracterizar compostos de interesse?
AlimentosAvaliação físico-química e sensorial de cerveja com jabuticaba (2022)Caracterização físico-química de cervejas com maracujá (2022)Como a incorporação de frutos modifica bebidas?
Atividade biológicaComposição química e atividade antimicrobiana do óleo essencial de Plinia jaboticaba (2016)Composição e atividade antifúngica do óleo essencial de pitanga (2018)Que atividades biológicas podem ser investigadas em extratos vegetais?
ProcessamentoCinética de secagem da casca de jabuticaba (2018)Modelagem da cinética de secagem da casca de umbu-cajá (2017)Como modelar a retirada de água de materiais vegetais?

Nota: exemplos de pares efetivamente recuperados por proximidade semântica. Os títulos foram abreviados e, quando necessário, traduzidos para facilitar a comparação. A semelhança entre trabalhos não implica resultados equivalentes, colaboração ou transferência tecnológica.

Esses exemplos mostram que estudar espécies diferentes não significa necessariamente trabalhar com perguntas científicas diferentes. Pesquisas sobre jabuticaba e açaí podem enfrentar desafios semelhantes na extração de pigmentos; trabalhos sobre cascas de jabuticaba e umbu-cajá podem empregar abordagens próximas para investigar processos de secagem. Isso não demonstra que os pesquisadores colaboram entre si ou que os resultados de uma espécie possam ser transferidos diretamente para outra. Mas revela algo interessante: parte do conhecimento necessário para investigar um fruto pode estar presente em pesquisas sobre outros frutos. Reconhecer essas aproximações pode ajudar a formular novas perguntas e identificar possibilidades de colaboração.

Esta análise tem limites importantes. Trabalhei com os títulos registrados na Plataforma Lattes, não com o conteúdo integral das publicações. A identificação dos assuntos e de suas aproximações foi feita por procedimentos computacionais, sem validação externa de todos os resultados. Além disso, os currículos encontrados não abrangem necessariamente todos os autores, e as áreas de atuação informadas correspondem à coleta realizada em 2026. Por isso, os números devem ser interpretados como um retrato das pesquisas e dos pesquisadores identificados, e não como uma medida definitiva de interdisciplinaridade ou de transferência de conhecimento.

Talvez a jabuticaba seja uma boa metáfora para a ciência brasileira por um motivo diferente daquele que costuma aparecer nas conversas. Ao procurar um fruto que associamos ao Brasil, encontrei pesquisadores de diferentes especialidades, uma mudança nas perguntas registradas ao longo do tempo e problemas semelhantes investigados em outras espécies. A jabuticaba pode ser brasileira; as perguntas científicas que ela desperta não precisam ser exclusivas dela.

Nota técnica

A análise utilizou dados da Plataforma Lattes provenientes da coleta de 2026, considerando quatro modalidades de produção bibliográfica: artigos publicados em periódicos, artigos completos em eventos, capítulos de livros e livros completos. Foram examinados aproximadamente 12,16 milhões de títulos com ano de publicação entre 2000 e 2025, provenientes de uma base previamente deduplicada. A recuperação inicial empregou expressões regulares para identificar variantes ortográficas e denominações científicas associadas à jabuticaba e à jabuticabeira. Essa busca identificou 1.478 registros candidatos. Posteriormente, foram aplicados critérios lexicais e de similaridade semântica para distinguir referências ao fruto de ocorrências relacionadas, por exemplo, a municípios, sítios arqueológicos ou outras espécies. A unidade de contagem adotada nas análises foi a combinação distinta de título e ano, resultando em um conjunto exploratório de 1.022 registros relacionados ao fruto. Esse procedimento não equivale a uma identificação bibliográfica perfeita de publicações únicas, nem garante a recuperação de trabalhos cujo título não mencione o objeto investigado. A análise temática desse conjunto utilizou indicadores textuais definidos para assuntos como cultivo, compostos químicos, alimentos, ensaios biológicos e aproveitamento de subprodutos. As categorias não eram mutuamente exclusivas.

Para investigar proximidades entre pesquisas, foi utilizado o modelo Qwen3-Embedding-0.6B, executado localmente. Na primeira varredura, foram calculadas representações vetoriais de aproximadamente 12,16 milhões de títulos, com recuperação dos registros mais próximos de consultas semânticas sobre diferentes aspectos da jabuticaba. Uma segunda varredura utilizou 48 títulos reais como referências, selecionados para representar problemas científicos distintos. Nessa etapa, os nomes dos frutos foram mascarados nos textos de referência para reduzir sua influência sobre as similaridades e dar maior peso aos procedimentos, propriedades e problemas investigados. Foram examinados aproximadamente 12,1 milhões de títulos e selecionados 29.688 vizinhos semânticos nos rankings produzidos. Entre eles, foram identificados 826 pares de aproximação envolvendo referências explícitas a outros frutos, correspondentes a aproximadamente 795 títulos vizinhos distintos. As representações foram comparadas por similaridade de cosseno, com processamento em lotes e manutenção dos melhores resultados, sem necessidade de armazenar os vetores de toda a base. Essas aproximações são resultados de recuperação de informação, não evidências de colaboração, transferência de métodos ou pertinência comprovada à jabuticaba. Os procedimentos de classificação e recuperação foram exploratórios, sem avaliação de precisão e revocação baseada em um conjunto independente de referências manualmente validadas.

A caracterização dos pesquisadores foi realizada pelo cruzamento dos identificadores Lattes presentes nos registros bibliográficos de aproximadamente 9,84 milhões de currículos. Foram utilizados, principalmente, os campos Primeira-Área e Primeira-Grande-Área. Quando uma publicação apresentava múltiplos identificadores Lattes, estes foram separados e associados individualmente aos respectivos currículos, evitando a duplicação da publicação nas contagens bibliográficas. Foram identificados 2.005 currículos distintos no conjunto de registros sobre jabuticaba. A análise de diversidade entre grandes áreas considerou 670 publicações com ao menos dois currículos identificados e informações de grande área disponíveis, das quais 421 reuniam pesquisadores de grandes áreas diferentes. Para relacionar áreas e assuntos científicos, empregou-se contagem fracionária: cada publicação contribuiu com peso total unitário, distribuído entre as grandes áreas declaradas dos currículos identificados. As áreas correspondem às informações disponíveis na coleta de 2026 e não necessariamente à trajetória disciplinar dos pesquisadores no momento da publicação. Além disso, os currículos identificados na base deduplicada podem representar apenas parte dos autores de cada trabalho. Os indicadores devem, portanto, ser interpretados como medidas descritivas da composição dos perfis recuperados, e não como estimativas definitivas de interdisciplinaridade.

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