Analisamos 10 milhões de Lattes para entender a que horas os cientistas mexem em seus currículos

Por Jesús P. Mena-Chalco

Este é o quinto post da série “A ciência brasileira vista pelos seus dados”, de Jesús P. Mena-Chalco, professor e pesquisador da Universidade Federal do ABC (UFABC). Os conteúdos saem semanalmente no Observatório de Políticas Científicas do IQC. Para acompanhar, acesse nosso site ou assine a newsletter.

É domingo, 21 horas. Em algum lugar do Brasil, alguém abre a Plataforma Lattes para atualizar o próprio Currículo. Talvez tenha lembrado de incluir um artigo, registrar uma orientação, acrescentar uma formação ou simplesmente deixar o currículo em dia. Não sabemos quem é essa pessoa nem por que escolheu aquele momento. Entretanto, quando quase 10 milhões de currículos são observados em conjunto, essa cena deixa de parecer apenas uma situação isolada: 21h é justamente a hora em que mais ocorrem atualizações aos domingos. 

Há uma frase comum no ambiente acadêmico de que o professor ou o pesquisador “nunca para”. De fato, a vida acadêmica é composta por muitas atividades que dificilmente aparecem nas estatísticas. Reuniões, pareceres, atendimento a estudantes, preparação de aulas, avaliações, organização de projetos, viagens e inúmeras tarefas administrativas consomem tempo, mas em geral deixam poucos registros que permitam saber quando aconteceram.

Atualizar o Currículo Lattes é uma dessas pequenas tarefas. E talvez seja uma das menos glamourosas da ciência. Não é descobrir uma molécula, demonstrar um teorema ou publicar um artigo. É manutenção, registro e organização da própria trajetória. Ainda assim, é uma atividade necessária. É no Lattes que ficam registradas publicações, orientações, projetos, formações e tantas outras informações utilizadas depois em bolsas, editais, concursos e avaliações.

Quase 10 milhões de currículos deixam um pequeno vestígio dessa atividade: o dia e a hora da última atualização. Nesta nota, exploro precisamente esse rastro temporal para responder à pergunta: Quando encontramos tempo para cuidar dessa parte pouco visível da vida científica?

Foram analisados 9.866.775 registros de última atualização, todos com data e hora válidas. Cada currículo aparece apenas uma vez, com sua última atualização conhecida. Portanto, esses dados não são um relógio de ponto e não permitem estimar jornada, produtividade, dedicação ou sobrecarga. O que eles oferecem é um proxy temporal de uma atividade acadêmico-administrativa.

O primeiro resultado mostra que essa atividade está longe de se concentrar apenas no período diurno. Cerca de 32% das últimas atualizações foram registradas a partir das 18h. Depois das 20h ainda aparecem 20,8% dos registros. Em outras palavras, aproximadamente uma em cada cinco últimas atualizações do Lattes ocorreu depois das oito da noite. Mesmo a partir das 22h ainda encontramos 8,7% das atualizações.

Figura 1. Distribuição horária das últimas atualizações do Currículo Lattes. Cada currículo contribui com o horário de sua última atualização registrada.

Esses números, por si só, não significam que uma em cada cinco pessoas estava “trabalhando à noite”. Uma atualização às 22h pode refletir uma rotina flexível, um prazo próximo, uma preferência pessoal ou simplesmente alguns minutos disponíveis naquele momento. O dado informa quando a atualização foi registrada, não o motivo que levou alguém a fazê-la.

O padrão fica mais interessante quando acrescentamos o dia da semana. De segunda a quinta-feira, as distribuições são bastante semelhantes, com maior concentração durante o dia. Na sexta-feira, a atividade começa a recuar mais cedo. No sábado, o volume cai fortemente. O domingo, porém, apresenta um desenho diferente.

Figura 2. Perfil horário das últimas atualizações do Lattes segundo o dia da semana. As cores representam a distribuição percentual das atualizações dentro de cada dia.

O mapa de calor mostra uma espécie de ritmo semanal. Durante a maior parte da semana, a atividade se concentra no período diurno. No domingo, ela se desloca progressivamente para o final da tarde e para a noite.

Esse resultado deve ser interpretado com cautela. Não estamos acompanhando as mesmas pessoas ao longo de uma semana. Portanto, não podemos afirmar que “os pesquisadores retomam o trabalho no domingo à noite”. O que os dados permitem dizer é que as atualizações registradas aos domingos apresentam um perfil de horário bastante diferente das observadas nos dias úteis.

Em termos de volume, o domingo é claramente um dia de menor atividade. Um domingo típico registra cerca de 46% da intensidade média observada de segunda a sexta-feira. Ou seja, o volume de atualizações cai para menos da metade, um padrão compatível com um dia associado ao descanso. 

Mas as atualizações que continuam ocorrendo aos domingos seguem outro relógio. A hora mais frequente passa a ser 21h. Cerca de 30% das atualizações dominicais acontecem a partir das 20h, enquanto, de segunda a quinta-feira, essa proporção é de aproximadamente 21%. A concentração depois das 20h é, portanto, cerca de 43% maior aos domingos.

Figura 3. Perfil horário das atualizações aos domingos em comparação com segunda a quinta-feira. Cada curva representa a distribuição percentual das atualizações dentro do respectivo grupo de dias.

A figura torna esse deslocamento bastante claro. Durante a manhã, a participação relativa do domingo é menor. As curvas se aproximam no final da tarde e, a partir daí, o domingo passa a apresentar proporcionalmente mais atualizações, especialmente entre 20h e 23h.

Talvez a melhor síntese seja: o domingo é mais silencioso, mas, quando o currículo é atualizado, o relógio marca mais tarde.

Os feriados reforçam essa interpretação. Na comparação entre os diferentes feriados nacionais, a mediana da intensidade relativa foi de cerca de 46% daquela observada em dias próximos comparáveis. Portanto, os dados não descrevem uma academia que simplesmente ignora fins de semana e feriados. Há uma clara desaceleração nesses períodos.

É justamente por isso que o domingo à noite chama atenção.

Atualizar o Lattes não é uma emergência científica. Na maior parte das vezes, é uma tarefa que poderia ser feita em outro momento. É também uma atividade banal, adiável e pouco visível. Talvez por isso ofereça uma pequena janela para observar como certas atividades acadêmicas encontram espaço no cotidiano.

Uma atualização realizada às 21h de domingo não permite concluir que aquela pessoa trabalhou o dia inteiro, estava sobrecarregada ou sacrificou seu descanso. Ela pode ter dedicado apenas alguns minutos à tarefa. Não sabemos com estes dados. 

Mas, observados aos milhões, esses pequenos registros deixam de ser episódios isolados e passam a revelar um padrão coletivo. O Lattes não é um relógio de ponto, mas seu timestamp revela um pequeno relógio da vida acadêmica.

Nota técnica

Os dados correspondem aos registros públicos de data e hora da última atualização dos Currículos Lattes disponibilizados pelo CNPq (https://memoria.cnpq.br/web/portal-lattes/extracoes-de-dados). A base analisada contém 9.866.775 currículos, todos com timestamp válido (os timestamps observados variam de 22 de agosto de 1997 a 13 de julho de 2026). Cada currículo contribui com uma única observação, correspondente à sua última atualização registrada. Os timestamps foram convertidos em componentes de data, hora e dia da semana e analisados de forma agregada, sem identificação individual. Como a fonte fornece apenas a última atualização de cada currículo, o desenho é transversal, e não longitudinal. Assim, não é possível reconstruir o histórico de atualizações de uma mesma pessoa nem inferir mudanças individuais de comportamento ao longo do tempo.

Para a distribuição horária geral, o percentual associado a cada hora h foi calculado como o número de currículos cuja última atualização ocorreu naquela hora dividido pelo total de timestamps válidos. Para os perfis por dia da semana, a normalização foi feita dentro de cada dia. Esse procedimento permite comparar o formato das distribuições horárias mesmo quando o número total de atualizações difere entre os dias. A intensidade diária também foi analisada separadamente, dividindo-se o número de atualizações observadas em cada dia da semana pelo número de ocorrências daquele dia no intervalo coberto pela base. Para a comparação entre domingo e segunda a quinta-feira, foram utilizadas essas distribuições internas, incluindo as proporções registradas a partir das 18h, 20h e 22h. Assim, por exemplo, os 30,0% após as 20h aos domingos e os 21,0% de segunda a quinta representam proporções dentro de cada respectivo grupo de dias, e não porcentagens do conjunto total.

Para cada ocorrência de feriado nacional, o número de atualizações foi comparado à média de dias situados em uma janela de ±28 dias, pertencentes ao mesmo dia da semana, excluindo a própria data, outros feriados e datas especiais. Foram considerados os feriados nacionais vigentes em cada ano; o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra foi incluído como feriado nacional a partir de 2024. Carnaval, Quarta-feira de Cinzas e Corpus Christi foram tratados separadamente como datas especiais e excluídos dos dias utilizados como referência.

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