Boletim Science Policy #07- Publicar em conjunto: cooperação científica, interesse nacional e liberdade acadêmica

Edição 07/ Agosto 2026
Por Rafael Saravalli e Isadora Assunção

Em 18 de agosto de 2026, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos determinou que trinta universidades norte-americanas auditassem suas relações com instituições estrangeiras, sobretudo chinesas. Harvard, MIT e Johns Hopkins estariam entre as universidades alcançadas pela medida. As instituições receberam duas semanas para revisar e, se necessário, encerrar parcerias consideradas problemáticas, sob o risco de perder acesso a financiamento federal1.

O episódio oferece uma imagem precisa da transformação recente da cooperação acadêmica internacional: o que antes era apresentado predominantemente como circulação de conhecimento passou a ser tratado também como problema de segurança nacional. Essa mudança atinge diretamente a publicação científica em conjunto. 

Os dados da OCDE mostram a dimensão dessa transformação. Em 1970, apenas cerca de 2% dos artigos científicos tinham autores vinculados a mais de um país. Em 2013, as publicações internacionais já representavam 22% da produção dos países da OCDE; em 2023, chegaram a 27%. Brasil, Austrália, Índia e Reino Unido estiveram entre os países com maior crescimento proporcional da colaboração internacional entre 2013 e 20232.

A coautoria é apenas um indicador aproximado: nem toda coautoria corresponde a uma colaboração substantiva, assim como muitas formas de cooperação não resultam em artigo conjunto. Ainda assim, a evolução desse indicador mostra que a ciência contemporânea depende cada vez mais de redes transnacionais. A cooperação internacional amplia o acesso a competências, dados e infraestruturas, aumenta a circulação dos resultados e permite enfrentar problemas que não respeitam fronteiras, como pandemias, mudanças climáticas, entre outros.

A mesma OCDE, entretanto, identifica uma desaceleração recente. A intensidade da colaboração externa dos Estados Unidos e da União Europeia permaneceu praticamente estável desde 2018. Na China, a participação de trabalhos internacionais caiu significativamente entre 2020 e 2023, em grande medida devido à redução das parcerias com pesquisadores norte-americanos. A tendência de expansão contínua da ciência internacional parece, portanto, ter encontrado um limite geopolítico.

  • a. O Estado como promotor da circulação do conhecimento

No Brasil, a atuação estatal tem sido decisiva para a internacionalização da pesquisa. Bolsas de mobilidade, projetos bilaterais, financiamento de redes e programas de atração de pesquisadores criam condições materiais para que as colaborações ocorram. A internacionalização, portanto, não resulta apenas da liberdade individual dos cientistas: ela depende de infraestrutura, financiamento e escolhas públicas.

O Programa Conhecimento Brasil é o exemplo recente mais expressivo. Uma de suas chamadas previu investimento de aproximadamente R$ 604 milhões em 599 projetos de atração e fixação de pesquisadores com experiência no exterior. Outra aprovou 640 projetos em rede com brasileiros vinculados a instituições estrangeiras, com investimento de R$ 228,5 milhões ao longo de dois anos3.

O programa combina, assim, duas concepções de política científica: trazer pesquisadores de volta e mobilizar, à distância, a diáspora científica brasileira. Essa distinção é importante. A diáspora não deve ser percebida apenas como “fuga de cérebros”. A mobilidade internacional pode produzir uma perda para o sistema nacional quando rompe vínculos e reduz a capacidade interna, mas pode também criar pontes duradouras de conhecimento, financiamento e acesso a infraestruturas.

Um estudo recente sobre as políticas brasileiras para a diáspora sustenta que o país ainda tende a privilegiar a repatriação, embora experiências como as da FAPESP e os projetos em rede do CNPq apontem para uma política de circulação do conhecimento4. Nesse sentido, o  sucesso deveria ser medido menos pelo número de retornos definitivos e mais pela qualidade e continuidade das colaborações.

As pesquisas realizadas durante a pandemia oferecem um exemplo concreto. Estudo sobre as colaborações entre pesquisadores no Brasil e integrantes da diáspora científica brasileira na produção de conhecimento sobre a COVID-19 mostra a importância de vínculos anteriores e relações institucionais capazes de sustentar a cooperação5.

  • b. Da cooperação à securitização da ciência

Ocorre que, nos últimos anos, em especial nos Estados Unidos, vive-se uma inflexão. A mudança ocorrida no governo Trump está na combinação entre nacionalismo científico, rivalidade estratégica, maior poder político sobre a distribuição de recursos e, nesse sentido, ampliação das suspeitas sobre vínculos acadêmicos estrangeiros. As restrições alcançaram a própria publicação conjunta. Em maio de 2026, noticiou-se que unidades do National Institutes of Health e a NASA haviam imposto novos controles sobre coautorias estrangeiras, em meio a orientações fragmentárias e por vezes contraditórias6.

Pouco depois, o NIH declarou oficialmente que a presença de um autor estrangeiro não transforma automaticamente uma pesquisa em “componente estrangeiro”. Mesmo assim, determinou que a coautoria fosse comunicada ao órgão financiador assim que conhecida. Em projetos cujos editais não admitem componentes estrangeiros, as publicações, em geral, não deveriam incluir colaboradores vinculados a instituições de outros países7

O ponto é relevante porque a coautoria pode surgir no decorrer da pesquisa, depois da concessão do financiamento. Colaborações científicas não seguem necessariamente as fronteiras administrativas de um projeto. Um pesquisador pode compartilhar dados, contribuir com uma técnica ou participar da interpretação dos resultados sem receber recursos do financiador original. Quando toda coautoria estrangeira passa a gerar suspeita ou demanda autorização prévia, o custo burocrático pode produzir autocensura: pesquisadores deixam de iniciar relações cujo enquadramento jurídico é incerto.

Outra iniciativa do governo Trump amplia esse risco. Em maio de 2026, o Office of Management and Budget apresentou uma proposta de reforma das normas aplicáveis a recursos federais. Entre outras medidas, o texto estabeleceria uma regra geral contra o uso de recursos federais em colaborações com países e entidades classificados como cobertos, salvo autorização legal ou decisão da autoridade responsável de que a atividade não representa risco e atende ao interesse nacional. A proposta também vincula os programas de financiamento às prioridades da administração e torna as taxas de publicação científica inelegíveis, salvo previsão legal ou aprovação prévia8.

É importante ressaltar que se trata de uma proposta, e não de regra definitiva. Ainda assim, ela explicita uma transformação institucional: o risco de segurança deixa de ser avaliado apenas com base na natureza da tecnologia, dos dados ou da instituição parceira e passa a conviver com critérios amplos como “interesse nacional” e “prioridades da administração”. Quando esses conceitos não são acompanhados por critérios públicos e possibilidade de recurso, podem permitir que o governo condicione não somente o financiamento, mas também os parceiros, a divulgação e a orientação intelectual da pesquisa.

O Acordo de Ciência e Tecnologia entre Estados Unidos e China, renovado em dezembro de 2024, oferece um modelo intermediário. O texto manteve a cooperação governamental em pesquisa básica, mas excluiu tecnologias críticas e emergentes, além de reforçar regras sobre propriedade intelectual, transparência, reciprocidade de dados e segurança dos pesquisadores9.

  • c. Riscos reais e respostas excessivas

Nada disso significa que a cooperação internacional seja isenta de riscos. Pesquisas de uso dual podem contribuir simultaneamente para fins civis e militares. Dados sensíveis, materiais biológicos e propriedade intelectual podem ser utilizados de maneira não prevista. Financiamentos, vínculos empregatícios e conflitos de interesse podem ser ocultados. Instituições formalmente acadêmicas podem manter relações estreitas com estruturas militares ou serviços de inteligência.

A resposta adequada, porém, depende da natureza do risco. A União Europeia adotou, em 2024, uma recomendação sobre segurança da pesquisa que reconhece ameaças de interferência, transferência indesejada de conhecimento e uso militar. Ao mesmo tempo, o documento estabelece que as medidas devem preservar a liberdade acadêmica, a autonomia institucional, a não discriminação e a cooperação internacional legítima10.

A ideia central é a de internacionalização responsável: avaliar atividades, parceiros e tecnologias concretas, em vez de transformar países ou nacionalidades em categorias automáticas de suspeição. A liberdade acadêmica também pode ser restringida pelo parceiro estrangeiro. Pesquisadores que trabalham com instituições submetidas a governos autoritários podem enfrentar censura, vigilância, intimidação ou impedimentos para estudar determinados temas. O relatório Free to Think 2025, da rede Scholars at Risk, analisou 395 ataques contra comunidades universitárias e chamou atenção para práticas de repressão transnacional contra estudantes e pesquisadores que se encontram fora de seus países11.

Essa preocupação tornou-se ainda mais urgente diante da deterioração global da autonomia universitária. A edição de 2026 do Academic Freedom Index registra declínio significativo da liberdade acadêmica em cinquenta países na última década, contra melhora em apenas nove. O relatório destaca a autonomia institucional como condição central da liberdade de pesquisar, ensinar, trocar ideias e divulgar resultados12.

Há ainda outro risco: a desigualdade entre parceiros. Pesquisadores do Norte Global podem definir a agenda, controlar os recursos e receber o crédito principal, enquanto instituições do Sul fornecem dados, amostras, trabalho de campo ou acesso a comunidades. O Cape Town Statement trata a distribuição da autoria, do financiamento, dos riscos e dos benefícios como questão de integridade científica, e não apenas de variabilidade de conduta profissional13.

Dados do Nature Index ilustram essa assimetria. Entre os 82 periódicos de ciências naturais acompanhados pelo índice, apenas 2,7% dos artigos publicados entre 2015 e 2022 envolviam colaboração entre cientistas de países de renda mais alta e de renda mais baixa14. Mesmo nesse pequeno conjunto, havia, em média, três autores de países mais ricos para cada autor de país mais pobre. Os próprios editores reconhecem que o recorte de periódicos é seletivo, mas os números evidenciam a persistência da chamada parachute ou helicopter research: coleta-se conhecimento ou material local sem transferir liderança, capacidade ou reconhecimento.

  • d. Uma política de Estado para a cooperação científica

Transformar a cooperação internacional em política de Estado não significa colocar a ciência a serviço de cada governo. Significa criar instituições suficientemente estáveis para que a cooperação atravesse ciclos eleitorais, sem deixar de responder a riscos concretos e a objetivos públicos de desenvolvimento. Essa política deveria apoiar-se em alguns princípios. 

O primeiro é a previsibilidade. Projetos científicos, laboratórios e redes de confiança levam anos para ser construídos. Programas interrompidos, contingenciamentos e mudanças repentinas de regras tornam o país um parceiro pouco confiável e desestimulam tanto o retorno de pesquisadores quanto sua participação à distância.

O segundo princípio é a proporcionalidade. A avaliação de segurança deve considerar o campo, a tecnologia, os dados, o tipo de instituição e a aplicação provável dos resultados. Pesquisa básica sobre uma doença infecciosa não pode receber automaticamente o mesmo tratamento de um projeto sobre sistemas de guiagem de mísseis. Tampouco a nacionalidade de um pesquisador deve substituir a análise de sua atividade e de seus vínculos institucionais.

O terceiro é a independência. O Estado pode definir prioridades – saúde pública, transição energética, soberania alimentar, defesa ou inteligência artificial – e decidir onde investir recursos coletivos. Mas a seleção dos projetos deve permanecer protegida por avaliação por pares, critérios públicos, transparência e possibilidade de recurso. 

Afinal, o conflito decisivo não se dá entre ciência aberta e soberania nacional. Ele ocorre entre diferentes formas de governar a interdependência científica. De um lado, existe uma abertura desprotegida, sujeita a espionagem, transferência indevida de tecnologia, censura estrangeira e relações desiguais. De outro, há o risco de uma política de segurança excessivamente ampla, que converte parceiros em suspeitos, paralisa redes produtivas e permite ao governo interferir na escolha dos temas e na divulgação dos resultados.

A coautoria internacional tornou-se um dos lugares onde essa disputa se torna visível. Estimular uma publicação conjunta pode significar construir capacidade, mobilizar a diáspora e participar da fronteira do conhecimento. Impedí-la pode ser necessário em situações específicas de risco tecnológico ou institucional. Mas a restrição deixa de ser legítima quando se apoia em categorias vagas, critérios políticos ou discriminação por nacionalidade.

  1. HOLLINGSWORTH, Heather. Pentagon orders audit of 30 universities’ partnerships with foreign institutions. AP News, 2026. Disponível em: https://apnews.com/article/pentagon-audit-china-harvard-mit-738832f9f20186dc5f9ef1aa39914636. Acesso em: 20 ago. 2026.  ↩︎
  2. OECD Science, Technology, and Innovation Outlook 2025. OECD, 2025. Disponível em: https://www.oecd.org/en/publications/2025/10/oecd-science-technology-and-innovation-outlook-2025_bae3698d/full-report/reconfiguring-scientific-co-operation-in-a-changing-geopolitical-environment_73f32116.html. Acesso em: 20 ago. 2026. ↩︎
  3. CONHECIMENTO Brasil trará de volta cientistas que atuam em 34 países; veja o resultado final. Gov.BR, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/cnpq/pt-br/assuntos/noticias/cnpq-em-acao/conhecimento-brasil-trara-de-volta-ao-brasil-cientistas-que-atuam-em-34-paises-veja-o-resultado-final/. Acesso em: 20 ago. 2026.  ↩︎
  4. COELHO FERREIRA, Gabriela Gomes et al. Policies on diaspora in Brazil. 2025. Disponível em: https://bonga.unisimon.edu.co/items/333f3980-8e1b-4128-a67e-6e91e1db25f4. Acesso em: 20 ago. 2026. ↩︎
  5. GIMENEZ, Ana Maria Nunes et al. Colaborações entre a Diáspora Científica Brasileira e Pesquisadores no Brasil no Tema da COVID-19: Engajamento, Motivações e Sustentação de Vínculos. Dados, v. 69, n. 1, p. e20230144, 2026. ↩︎
  6. BRAINARD, Jeffrey. NIH, NASA place limits on foreign co-authors. Science, v. 392, n. 6801, p. 912, 2026. ↩︎
  7. NOT-OD-26-O84. NIH, 2026. Disponível em: https://www.grants.nih.gov/grants/guide/notice-files/NOT-OD-26-084.html. Acesso em: 20 ago. 2026.  ↩︎
  8. REGULATION for Federal Financial Assistance. OMB, 2026. Disponível em: https://thefederalregister.org/documents/2026-10817/regulation-for-federal-financial-assistance. Acesso em: 20 ago. 2026.  ↩︎
  9. AMENDMENT and Extension of the U.S.-PRC Science and Technology Agreement (STA). 2024. Disponível em:https://2021-2025.state.gov/amendment-and-extension-of-the-u-s-prc-science-and-technology-agreement-sta/. Acesso em: 20 ago. 2026. ↩︎
  10. COUNCIL Recommendation of 23 May 2024 on enhancing research security. Council of the European Union, 2024. Disponível em: https://eur-lex.europa.eu/legal-content/EN/ALL/?uri=CELEX:32024H03510. Acesso em: 20 ago. 2026.  ↩︎
  11. FREE to Think. 2025. Disponível em: https://www.scholarsatrisk.org/resources/free-to-think-2025/. Acesso em: 20 ago. 2026.  ↩︎
  12. ACADEMIC Freedom Index Update. 2026. Disponível em: https://academic-freedom-index.net/research/Academic_Freedom_Index_Update_2026.pdf. Acesso em: 20 ago. 2026.  ↩︎
  13. HORN, Lyn et al. The Cape Town Statement on fairness, equity and diversity in research. Nature, 2023. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-023-00855-y. Acesso em: 20 ago. 2026.  ↩︎
  14. END the glaring inequity in international science collaborations. Nature, 2023. Disponível em: https://www.nature.com/articles/d41586-023-04022-1. Acesso em: 20 ago. 2026.  ↩︎

SAIBA MAIS

NOTÍCIAS

Nesta edição, as notícias mostram como decisões sobre prioridades tecnológicas, segurança e controle institucional podem produzir incerteza sobre o próprio fomento científico. Dos investimentos bilionários em IA aos cortes em ciência básica, passando por biossegurança e controle da circulação do conhecimento, o debate de science policy é cada vez mais também uma disputa sobre quais capacidades científicas e tecnológicas queremos tornar possíveis e sob quais condições.

Infraestrutura, financiamento e capacidade tecnológica

1. Nvidia e gigantes de Wall Street articulam US$ 500 bilhões para infraestrutura de IA

Nvidia e grandes instituições financeiras, entre elas Apollo, Blackstone, BlackRock, Brookfield, Goldman Sachs e KKR, estão trabalhando em uma estrutura de financiamento de até US$ 500 bilhões destinada à expansão da infraestrutura de inteligência artificial. O capital seria direcionado principalmente a chips, data centers e geração de energia, numa demonstração da escala física e financeira adquirida pelo desenvolvimento de IA. A iniciativa também chama atenção para relações potencialmente circulares no setor, já que a Nvidia pode ajudar a financiar empresas e projetos que, posteriormente, utilizarão os recursos para adquirir seus próprios chips. O caso amplia o escopo da política de IA: competição tecnológica passa a depender também de política energética, infraestrutura, mercados de capitais e concentração econômica.

Link: https://www.ft.com/content/98a8fd17-15b6-4f67-9cb4-825722b11348

2. Governo dos EUA direciona US$ 874 milhões a tecnologias estratégicas de semicondutores

O Departamento de Comércio norte-americano assinou cartas de intenção para conceder até US$ 874 milhões a sete empresas que desenvolvem tecnologias de semicondutores voltadas à inteligência artificial e à computação avançada. Os investimentos, realizados no âmbito do CHIPS and Science Act, incluem memória para IA, co-packaged optics, equipamentos de encapsulamento avançado e outras tecnologias consideradas relevantes para reduzir dependências externas. O caso evidencia uma política industrial cada vez mais seletiva, na qual o Estado identifica gargalos tecnológicos específicos e direciona recursos para construir capacidades nacionais.

Link: https://www.reuters.com/technology/us-signs-letters-intent-worth-874-million-boost-semiconductor-research-2026-07-30/

3. Observatório britânico pode fechar após perder financiamento público

O Jodrell Bank Observatory, que abriga o maior radiotelescópio do Reino Unido, perdeu seu orçamento anual de £2,8 milhões da UK Research and Innovation e afirma que poderá interromper atividades caso não encontre uma fonte alternativa de financiamento. Os cortes fazem parte de um processo mais amplo de priorização no financiamento da física britânica e atingem também projetos internacionais e outras infraestruturas científicas. O episódio expõe uma tensão central da política científica orientada por prioridades: mesmo quando o orçamento agregado de pesquisa não diminui, concentrar recursos em determinadas tecnologias pode reduzir a capacidade de sustentar infraestruturas de ciência básica construídas ao longo de décadas.

Link: https://www.timeshighereducation.com/news/jodrell-bank-loses-funding-stfc-details-physics-cuts

Inteligência artificial, segurança e governança da ciência

4. IA começa a ser usada para escolher quais pesquisas merecem atenção

Empresas privadas estão desenvolvendo ferramentas de inteligência artificial destinadas a avaliar manuscritos científicos antes da publicação. Uma delas, a israelense QED Science, afirma conseguir identificar o “1% superior” dos preprints em ciências da vida com base em critérios como originalidade e validade. A promessa é tornar a avaliação científica mais eficiente e menos sujeita a determinados vieses humanos, mas a adoção desses sistemas também transfere para modelos privados parte da definição operacional do que constitui pesquisa relevante ou inovadora. Caso sejam incorporados por periódicos, universidades ou financiadores, esses sistemas poderão se transformar em mecanismos de alocação de atenção, reputação e recursos dentro da ciência.

Link: https://www.nature.com/articles/d41586-026-02276-z

5. Pesquisadores usam IA para projetar novos vírus funcionais

Pesquisadores de Stanford e do Arc Institute utilizaram os modelos Evo 1 e Evo 2 para projetar genomas inteiramente novos de bacteriófagos, vírus que infectam bactérias. O avanço pode contribuir para o desenvolvimento de alternativas contra bactérias resistentes a antibióticos, mas também demonstra uma mudança qualitativa nas capacidades de IA aplicada à biologia: modelos deixam de apenas analisar organismos existentes e passam a ampliar o espaço de estruturas biológicas que pesquisadores conseguem projetar. 

Link: https://www.wired.com/story/scientists-used-ai-to-create-16-new-viruses/

6. Casa Branca cria sistema secreto para avaliar riscos cibernéticos de modelos de IA

O governo norte-americano finalizou um novo sistema de avaliação das capacidades cibernéticas de modelos avançados de inteligência artificial. Empresas como OpenAI, Anthropic, Google, Meta e Nvidia foram convidadas a conhecer a estrutura e poderão submeter voluntariamente modelos ao governo até 30 dias antes do lançamento público. Os testes utilizarão benchmarks classificados, mas os critérios, os limites de risco e parte das regras de aplicação não foram divulgados. O modelo coloca em evidência um dilema de governança: algum sigilo pode ser necessário para evitar que benchmarks de capacidades ofensivas sejam utilizados para contornar avaliações, mas a falta de transparência também reduz o escrutínio científico e pode privilegiar grandes empresas com acesso direto ao processo governamental.

Link: https://www.wired.com/story/the-white-house-is-keeping-its-ai-cybersecurity-framework-secret/

Ciência, inovação e capacidade de resposta

7. Vacina contra Ebola chega ao primeiro voluntário apenas 68 dias após declaração de emergência

A Universidade de Oxford administrou a primeira dose experimental de uma vacina contra o Bundibugyo ebolavirus apenas 68 dias depois de a OMS declarar a atual epidemia uma emergência internacional. A velocidade foi possível porque pesquisadores já possuíam plataformas vacinais, sequências e conhecimento acumulado, enquanto estudos não clínicos, fabricação, preparação do protocolo e interação regulatória foram conduzidos paralelamente. Cerca de 620 mil doses já haviam sido produzidas, e outras duas vacinas também estão em desenvolvimento com financiamento da Coalition for Epidemic Preparedness Innovations. O episódio mostra que capacidade de resposta rápida não depende apenas de flexibilizar procedimentos durante uma crise, mas principalmente de investimento antecipatório, infraestrutura científica e produtiva e coordenação institucional construídos antes da emergência.

Link: https://www.nature.com/articles/d41586-026-02278-x

Autonomia científica e desenho institucional

8. Instituições científicas alemãs criam planos para enfrentar possível interferência política

Grandes organizações científicas alemãs estão preparando medidas para proteger pesquisadores caso a AfD chegue ao governo de estados do leste do país. Entre as possibilidades discutidas estão reforço de assistência jurídica e transferência de pesquisadores submetidos a pressão política para instituições em outros estados. O caso chama atenção para uma dimensão institucional da liberdade científica: sua proteção depende de normas abstratas de autonomia acadêmica, e também da distribuição territorial de competências, das regras de financiamento e da existência de instituições alternativas capazes de absorver pesquisadores e projetos sob pressão.

Link: https://www.timeshighereducation.com/news/well-stand-our-ground-german-research-prepares-afd-rise

Segurança da pesquisa e circulação internacional do conhecimento

9. China reconsidera incentivos para publicação de pesquisas no exterior

Autoridades chinesas discutem reduzir ou eliminar o peso atribuído à publicação em grandes revistas internacionais nas decisões sobre promoção acadêmica e financiamento de pesquisadores. A revisão dá continuidade à tentativa de diminuir a dependência do Science Citation Index, mas acrescenta uma preocupação crescente com segurança nacional: o Ministério da Segurança do Estado alertou que artigos, conferências e colaborações internacionais podem expor estruturas, parâmetros técnicos e dados considerados sensíveis. Desde 2025, a National Natural Science Foundation of China também exige que pelo menos 20% dos trabalhos representativos resultantes de projetos financiados sejam publicados em periódicos chineses. A discussão combina, portanto, três dimensões de política científica que normalmente aparecem separadas: reforma dos incentivos de avaliação, fortalecimento do sistema editorial doméstico e controle estratégico da circulação internacional do conhecimento.

Link: https://www.ft.com/content/64a811f1-b132-4211-8a8c-2252cf964039

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