
Edição 03/ Maio 2026
Por Rafael Saravalli e Isadora Assunção
O debate sobre brain drain costuma partir de uma imagem simples: países investem na formação de pessoas altamente qualificadas, que depois migram para outros centros de pesquisa, inovação ou trabalho, deixando para trás uma perda de capital humano. A imagem é intuitiva, mas insuficiente. Em uma economia do conhecimento profundamente internacionalizada, a saída de pesquisadores, médicos, engenheiros, profissionais de tecnologia ou estudantes de pós-graduação não é, por si só, um problema. Ela pode representar perda, mas também pode representar circulação, formação, construção de redes, cooperação internacional, retorno futuro ou inserção em ecossistemas científicos mais densos.
Essa complexidade aparece nas diferentes formas pelas quais governos, organismos internacionais e documentos estatísticos usam o conceito de brain drain. Não há uma definição jurídica ou política única, adotada de maneira uniforme pelos países.
A Organização Internacional para as Migrações (OIM) oferece uma definição de referência: brain drain é a emigração de indivíduos treinados e talentosos de seu país de origem para outro país, gerando uma redução de competências no país que os formou ou deles dependia1. A OCDE, por sua vez, enquadra o fenômeno como uma perda líquida de trabalhadores altamente qualificados, historicamente observada em fluxos da Europa para a América do Norte, de países em desenvolvimento para países desenvolvidos e, mais recentemente, de países do Leste Europeu para a Europa Ocidental2.
Essa abordagem é importante porque distingue brain drain de fenômenos correlatos: brain gain, quando um país se beneficia da entrada ou retorno de talentos; brain exchange, quando há circulação relativamente equilibrada; e brain waste, quando pessoas qualificadas migram ou permanecem em determinado sistema, mas têm suas competências subutilizadas.
No campo da saúde, a definição assume contornos próprios. A Organização Mundial da Saúde trata brain drain como a migração internacional de profissionais de saúde quando essa mobilidade fragiliza os sistemas sanitários dos países de origem3. Quando países de renda alta recrutam profissionais formados em países com escassez de médicos ou enfermeiros, transferem para si competências financiadas ou urgentemente necessárias em sistemas de saúde mais frágeis. O vocabulário de brain drain, nesse caso, expressa uma preocupação com a distribuição internacional de capacidades públicas essenciais.
A África do Sul oferece um dos exemplos mais claros de definição oficial ou estatística. A Statistics South Africa4 utiliza uma definição próxima à da OIM, mas com uma formulação especialmente útil: brain drain é a depleção de capital humano em uma ocupação ou setor econômico específico em razão da emigração de trabalhadores qualificados. Essa definição tem duas virtudes. Primeiro, ela não reduz o fenômeno à saída de pessoas com diplomas universitários; enfatiza ocupações e setores. Segundo, ela admite tanto a migração internacional quanto a migração interna. Em um país marcado por desigualdades territoriais profundas, a perda de profissionais qualificados de determinadas regiões pode ser tão relevante quanto a saída para o exterior.
A União Europeia adota uma abordagem mais operacional5. Em análises de mercado de trabalho, o brain drain de trabalhadores qualificados é frequentemente medido como a saída de pessoas em idade ativa com educação média ou superior, com base nos níveis educacionais da classificação ISCED. Essa definição é mais ampla do que a ideia tradicional de fuga de pessoas com ensino superior completo. Ao incluir trabalhadores de educação média e alta, a União Europeia reconhece que a perda de capacidade produtiva não se limita a doutores, cientistas ou profissionais de elite. Técnicos, trabalhadores especializados e profissionais com formação intermediária também podem ser decisivos para setores estratégicos.
O Reino Unido usa o termo de maneira dupla: internacional e interna6. Em debates migratórios, brain drain pode designar a saída de profissionais qualificados para outros países. Mas, em políticas de mobilidade social e desenvolvimento regional, a expressão também descreve a saída de jovens talentosos de áreas desfavorecidas ou “cold spots” para universidades, centros urbanos ou regiões com maior oferta de empregos qualificados. O problema, nesse uso, não é que jovens busquem oportunidades melhores. O problema é que determinadas localidades se tornam incapazes de reter ou atrair de volta pessoas qualificadas, perpetuando desigualdades regionais. Assim, brain drain deixa de ser apenas um conceito de política migratória internacional e passa a ser também um conceito de política territorial.
O Canadá, por sua vez, costuma tratar brain drain em termos de perda líquida ou perda qualitativa7. O debate canadense historicamente olhou para a emigração de profissionais altamente qualificados para os Estados Unidos, mas a preocupação não era simplesmente qualquer saída de trabalhadores educados. Duas ideias aparecem com frequência: primeiro, a possibilidade de uma emigração significativa não compensada pela entrada de trabalhadores igualmente qualificados; segundo, a perda dos “best and brightest”, ou seja, de uma fração pequena, mas estratégica, de talentos excepcionais. Esse enquadramento é sofisticado porque reconhece que a quantidade absoluta de emigrantes pode não ser o único indicador relevante. Em certas áreas, a perda de pesquisadores de ponta, empreendedores altamente inovadores ou especialistas escassos pode ter impacto desproporcional.
A Índia representa um caso particularmente interessante porque seu discurso público passou, nas últimas décadas, de uma leitura defensiva de brain drain para uma narrativa de brain gain8. Durante muito tempo, a saída de engenheiros, médicos, pesquisadores e profissionais de tecnologia formados na Índia para Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e outros países foi vista como perda nacional. Mais recentemente, porém, documentos e discursos governamentais passaram a enfatizar a contribuição da diáspora indiana para o desenvolvimento do país, seja por remessas, investimentos, redes de inovação, transferência de conhecimento, empreendedorismo ou retorno seletivo. Nesse enquadramento, brain drain não desaparece, mas é reinterpretado como uma etapa potencial de um ciclo mais amplo de brain circulation9.
O Brasil costuma usar a expressão “fuga de cérebros” para designar a emigração ou perda de pessoas altamente qualificadas, sobretudo cientistas, pesquisadores, médicos e doutores. O termo aparece com frequência no debate público em momentos de crise orçamentária, instabilidade institucional, cortes em bolsas de pesquisa ou redução das perspectivas de carreira acadêmica.
Mais recentemente, o Ipea buscou operacionalizar empiricamente essa discussão ao analisar doutores formados no Brasil que vivem no exterior10. A escolha metodológica é específica: ao tomar doutores titulados em instituições brasileiras como grupo de análise, o estudo transforma uma metáfora política, “fuga de cérebros”, em um objeto mensurável de política científica. O resultado, ao indicar uma proporção relativamente baixa de doutores brasileiros vivendo fora do país, sugere que talvez o problema brasileiro não seja uma fuga quantitativamente massiva, mas algo mais complexo: baixa internacionalização, baixa atração de talentos estrangeiros, dificuldades de reinserção, precariedade de carreiras científicas e subutilização interna de competências avançadas.
A Austrália mobiliza o conceito de forma fortemente associada à ética da migração qualificada e à política regional11. Em um primeiro sentido, o debate australiano olha para o risco de que sistemas de imigração seletiva atraiam médicos, enfermeiros e outros profissionais formados em países que arcaram com os custos de sua formação e que, muitas vezes, enfrentam escassez desses mesmos trabalhadores. Há, portanto, uma preocupação semelhante à da OMS: países ricos podem se beneficiar da formação realizada por países com menor capacidade fiscal e institucional. Em um segundo sentido, a Austrália também discute brain drain em chave territorial, especialmente em relação à perda de talentos por regiões menos urbanizadas ou economicamente menos dinâmicas. Como no Reino Unido, o fenômeno não é apenas internacional; é também regional.
A China oferece talvez o exemplo mais emblemático de política orientada à reversão do brain drain12. Durante décadas, a saída de estudantes, pesquisadores e empreendedores chineses para universidades e empresas estrangeiras foi vista como perda potencial. Com o tempo, contudo, a estratégia chinesa passou a enfatizar o retorno de talentos, a atração de pesquisadores da diáspora e a criação de programas específicos para reconectar cientistas e empreendedores formados no exterior ao projeto nacional de desenvolvimento tecnológico. Nesse enquadramento, brain drain é o movimento inicial de saída; reverse brain drain ou brain gain é o objetivo político de trazer de volta capacidades, redes, conhecimento e capital. A China ilustra de maneira clara que o problema não é necessariamente a internacionalização da formação, mas a ausência de mecanismos de reconversão dessa experiência internacional em vantagem nacional.
Esses exemplos mostram que brain drain não é um conceito unitário. Há pelo menos cinco formas principais de defini-lo.
A primeira é a definição educacional, usada por muitos estudos estatísticos e por organismos como a OCDE: brain drain como emigração de pessoas com educação terciária ou, em versões mais amplas, com educação média e superior. Essa abordagem é útil porque permite mensuração comparável, mas pode deixar de fora profissionais estratégicos sem diploma universitário tradicional. A segunda é a definição ocupacional ou setorial, muito presente em saúde, STEM, tecnologia da informação e políticas industriais: brain drain como perda de trabalhadores em áreas críticas para o funcionamento ou desenvolvimento de um sistema. A terceira é a definição de fluxo líquido: não importa apenas quantos saem, mas se essa saída é compensada por imigração qualificada, retorno, colaboração da diáspora ou circulação. A quarta é a definição territorial ou interna, usada em países como Reino Unido, África do Sul e Austrália: talentos podem drenar de regiões periféricas para grandes centros sem atravessar fronteiras nacionais. A quinta é a definição associada a brain waste: o problema pode não ser a saída, mas a incapacidade de utilizar adequadamente as competências disponíveis.
A partir dessas experiências comparadas, uma definição mais útil para fins de política científica seria a seguinte: brain drain é a saída sustentada, o não retorno ou a subutilização de pessoas altamente educadas, altamente qualificadas ou estrategicamente importantes para um país, região, setor ou instituição, de modo a reduzir a capacidade humana, científica, tecnológica, produtiva ou pública do sistema que as formou ou delas dependia. Essa definição é ampla o suficiente para incluir migração internacional, perda regional de talentos, esvaziamento setorial e desperdício de competências. Mas ela também evita o erro de tratar toda mobilidade como perda.
Essa distinção é fundamental porque a internacionalização é, ao mesmo tempo, risco e condição de desenvolvimento científico. Um país que não envia estudantes, pesquisadores e profissionais ao exterior pode evitar certas perdas imediatas, mas corre o risco de isolamento intelectual, baixa inserção em redes globais e menor acesso a agendas científicas emergentes. Por outro lado, um país que internacionaliza sua elite científica sem criar mecanismos de retorno, absorção ou colaboração pode transformar a mobilidade em drenagem. A diferença entre brain drain e brain gain não está no movimento em si, mas na arquitetura institucional que o acompanha.
Entre brain drain e brain gain, há um conceito intermediário talvez mais adequado ao século XXI: brain circulation. A circulação de cérebros reconhece que trajetórias científicas e profissionais contemporâneas são transnacionais. Pesquisadores fazem doutorado em um país, pós-doutorado em outro, colaboram com laboratórios em vários continentes, publicam em redes internacionais e podem manter múltiplas afiliações. Nessa realidade, exigir retorno físico permanente pode ser uma expectativa empobrecida. Mais importante do que trazer todos de volta é manter conexões produtivas, criar pontes institucionais e garantir que a mobilidade alimente capacidades domésticas.
O Brasil precisa ser analisado a partir dessa chave. Se os dados disponíveis sugerem baixa proporção de doutores formados no país vivendo no exterior, isso não significa automaticamente sucesso de política científica. Pode significar retenção, mas também pode significar baixa circulação. Pode indicar que poucos doutores saem porque existem vínculos fortes com o sistema nacional, mas também pode revelar barreiras financeiras, linguísticas, burocráticas e institucionais que dificultam experiências internacionais mais robustas. A pergunta relevante, portanto, não é apenas “quantos doutores brasileiros estão fora?”, mas “quantos pesquisadores brasileiros conseguem circular internacionalmente e transformar essa circulação em capacidade institucional no Brasil?”.
Uma abordagem mais sofisticada deve perguntar quando a mobilidade vira perda, quando vira ganho e quando permanece como circulação potencial ainda não aproveitada. A resposta depende menos do passaporte do pesquisador e mais das instituições que o conectam ao país. O pesquisador que sai e nunca mais colabora pode representar perda. O pesquisador que fica, mas não encontra condições de trabalhar, pode representar desperdício. O pesquisador que sai, colabora, retorna temporariamente, orienta estudantes, cria redes e transfere conhecimento pode representar ganho.
Por isso, a agenda brasileira não deveria ser construída em torno do medo da fuga de cérebros, mas da construção de uma arquitetura nacional de circulação de talentos. A verdadeira questão, portanto, não é se o Brasil sofre ou não de brain drain em sentido estrito. A questão é se o Brasil possui uma política capaz de transformar a mobilidade em capacidade. Em science policy, essa é a diferença entre temer a internacionalização e governá-la.
- ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL PARA AS MIGRAÇÕES. Glossary on Migration. International Migration Law, n. 34. Geneva: IOM, 2019. Disponível em: https://publications.iom.int/system/files/pdf/iml_34_glossary.pdf. Acesso em: 12 maio 2026.
↩︎ - ORGANIZAÇÃO PARA A COORDENAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO. International Mobility of the Highly Skilled. Paris: OECD Publishing, 2002. Disponível em: https://www.oecd.org/content/dam/oecd/en/publications/reports/2001/12/international-mobility-of-the-highly-skilled_g1gh2490/9789264196087-en.pdf. Acesso em: 12 maio 2026
↩︎ - ORGANIZAÇÃO PARA A COORDENAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO. International Mobility of the Highly Skilled. Paris: OECD Publishing, 2002. Disponível em: https://www.oecd.org/content/dam/oecd/en/publications/reports/2001/12/international-mobility-of-the-highly-skilled_g1gh2490/9789264196087-en.pdf. Acesso em: 12 maio 2026
↩︎ - STATISTICS SOUTH AFRICA. Migration Profile Report for South Africa: a country profile 2023. Pretoria: Statistics South Africa, 2024. Disponível em: https://www.statssa.gov.za/publications/03-09-17/03-09-172023.pdf. Acesso em: 12 maio 2026.
↩︎ - COMISSÃO EUROPEIA. Brain drain. European Migration Network Asylum and Migration Glossary. Brussels: European Commission, [s.d.]. Disponível em: https://ec.europa.eu/assets/home/emn-glossary/glossary.html?detail=brain+drain. Acesso em: 12 maio 2026; EUROPEAN MIGRATION NETWORK. Asylum and Migration Glossary 3.0: a tool for better comparability produced by the European Migration Network. Brussels: European Commission, 2014. Disponível em: https://www.interno.gov.it/sites/default/files/allegati/asylum_and_migration_glossary_3.0-glossario_emn.pdf.Acesso em: 12 maio 2026.
↩︎ - SOCIAL MOBILITY COMMISSION. State of the Nation 2025: the evolving story of social mobility in the UK. London: GOV.UK, 2025. Disponível em: https://www.gov.uk/government/publications/state-of-the-nation-2025-the-evolving-story-of-social-mobility-in-the-uk. Acesso em: 12 maio 2026; THE BRITISH ACADEMY. Cold spots: mapping inequality in SHAPE provision in UK higher education. London: The British Academy, [s.d.]. Disponível em: https://www.thebritishacademy.ac.uk/policy-and-research/british-academy-shape-observatory/cold-spots-mapping-inequality-in-shape-provision/. Acesso em: 12 maio 2026.
↩︎ - OECD. International Mobility of the Highly Skilled. Paris: OECD Publishing, 2002. Disponível em: https://www.oecd.org/content/dam/oecd/en/publications/reports/2001/12/international-mobility-of-the-highly-skilled_g1gh2490/9789264196087-en.pdf. Acesso em: 12 maio 2026; DOCQUIER, Frédéric; MARFOUK, Abdeslam. International migration by educational attainment, 1990-2000. In: ÖZDEN, Çağlar; SCHIFF, Maurice (ed.). International Migration, Remittances, and the Brain Drain. Washington, DC: World Bank; Palgrave Macmillan, 2006. p. 151-199.
↩︎ - INDIA. MINISTRY OF EXTERNAL AFFAIRS. Annual Report 2023-24. New Delhi: Ministry of External Affairs, 2024. Disponível em: https://www.mea.gov.in/Uploads/PublicationDocs/38366_MEA_Annual_Report_2023_24.pdf. Acesso em: 12 maio 2026; INDIA. MINISTRY OF EXTERNAL AFFAIRS. India and its diaspora: from brain drain to brain gain. New Delhi: Ministry of External Affairs, [s.d.]. Disponível em: https://www.mea.gov.in/. Acesso em: 12 maio 2026.
↩︎ - KONE, Zovanga L.; ÖZDEN, Çağlar. Brain drain, brain gain, and brain circulation. Washington, DC: World Bank, 2017. Disponível em: https://documents1.worldbank.org/curated/en/099654308272476002/pdf/IDU135d35fac1c09414e7118f1e1753fdbf66754.pdf. Acesso em: 12 maio 2026.
↩︎ - INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA – IPEA. Brasil tem baixa fuga de cérebro, com apenas 1,2% de doutores vivendo fora do país, aponta estudo. Brasília, DF: Ipea, 2026. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/portal/categorias/45-todas-as-noticias/noticias/16357-brasil-tem-baixa-fuga-de-cerebro-com-apenas-1-2-de-doutores-vivendo-fora-do-pais-aponta-estudo. Acesso em: 12 maio 2026; IPEA. Emigração de doutores titulados no Brasil: há evidência de fuga de cérebros? Radar: tecnologia, produção e comércio exterior, Brasília, DF: Ipea, 2026. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/portal/radar/temasradar/ciencia-tecnologia-2/16361-emigracao-de-doutores-titulados-no-brasil-ha-evidencia-de-fuga-de-cerebros. Acesso em: 12 maio 2026.
↩︎ - AUSTRALIA. PARLIAMENT OF AUSTRALIA. JOINT STANDING COMMITTEE ON MIGRATION. Chapter 7: Skilled Migration. In: AUSTRALIA. PARLIAMENT OF AUSTRALIA. Report of the inquiry into migration, pathways to nation building. Canberra: Parliament of Australia, [s.d.]. Disponível em: https://www.aph.gov.au/Parliamentary_Business/Committees/Joint/Migration/MigrationPathway/Report/Chapter_7_-_Skilled_Migration. Acesso em: 12 maio 2026; PUBLIC SERVICES INTERNATIONAL; THE AUSTRALIA INSTITUTE. Pacific health brain drain: Australia and New Zealand poach nurses, leave islands to collapse. Ferney-Voltaire: Public Services International, 2025. Disponível em: https://publicservices.international/resources/news/pacific-health-brain-drain-australia–nz-poach-nurses-leave-islands-to-collapse-?id=16303&lang=en. Acesso em: 12 maio 2026.
↩︎ - MARINI, Giulio; YANG, Lili. Globally bred Chinese talents returning home: an analysis of a reverse brain drain flagship policy. Science and Public Policy, Oxford, v. 48, n. 4, p. 541-552, 2021. Disponível em: https://academic.oup.com/spp/article/48/4/541/6290435. Acesso em: 12 maio 2026; DAI, Tian; LIU, Xiaohui. Brain drain reversal and return subsidy. Journal of Comparative Economics, v. 43, n. 2, p. 443-459, 2015. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0147596714000183. Acesso em: 12 maio 2026; ZWEIG, David; CHEN, Changgui; ROSEN, Stanley. Globalization and transnational human capital: overseas and returnee scholars to China. The China Quarterly, Cambridge, n. 179, p. 735-757, 2004.
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SAIBA MAIS
Nos últimos 15 dias, o noticiário de science policy sugeriu uma inflexão importante: mais do que expandir a ciência, governos, agências e universidades estão sendo pressionados a preservar sua confiabilidade, autonomia e capacidade estratégica em um ambiente cada vez mais instável. De um lado, o avanço da IA e o aumento de fraudes editoriais recolocam a integridade científica como problema de infraestrutura e verificação; de outro, disputas sobre conselhos científicos, regras de financiamento e neutralidade institucional mostram que a liberdade científica depende de arranjos de governança concretos.
Integridade científica e confiança no sistema científico
- Agências de fomento enfrentam explosão de propostas impulsionadas por IA
Um estudo com 12 financiadores de pesquisa indica que o número de pedidos de grant cresceu fortemente desde o lançamento do ChatGPT, com alta média de 57% entre 2022 e 2025 e salto de 142% nas bolsas Marie Curie. A preocupação é que a IA generativa esteja elevando o volume e a qualidade formal das propostas a um ponto em que a revisão por pares tradicional fique sobrecarregada, exigindo mudanças nos critérios e métodos de avaliação.
Link: https://www.timeshighereducation.com/news/research-funders-flooded-ai-assisted-applications - Agência indiana passa a exigir declaração de retratações em pedidos de financiamento
A principal agência de fomento da Índia passou a obrigar pesquisadores a informar retratações ao solicitar grants, numa tentativa de desincentivar fraude e aumentar a responsabilização individual. A medida também busca elevar o custo reputacional de colaborar com autores reincidentes em má conduta científica, inserindo a integridade de pesquisa diretamente no processo de financiamento.
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A editora IOP Publishing anunciou a adoção de uma ferramenta de inteligência artificial capaz de identificar pareceres suspeitos, duplicados ou excessivamente semelhantes no processo de peer review. A iniciativa responde ao crescimento de fraudes e “review mills” na publicação científica e mostra que a integridade editorial está começando a depender também de mecanismos automatizados de detecção.
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4. Auditoria revela alta acentuada de citações falsas em artigos biomédicos
Uma análise de 2,5 milhões de artigos biomédicos identificou quase 3 mil papers com referências fabricadas e mostrou que o problema cresceu fortemente desde 2023, com aumento expressivo a partir de meados de 2024. A descoberta reforça preocupações com o impacto da IA generativa sobre a integridade da literatura científica e pressiona editoras a adotar verificação automatizada de referências já na submissão.
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5. PsyArXiv endurece moderação para preservar integridade do repositório
O PsyArXiv anunciou mudanças em suas políticas de moderação para lidar com o aumento de submissões e reforçar a qualidade do acervo, incluindo checagens adicionais de conformidade e maior atenção à expertise prévia dos autores em temas mais sensíveis ou especializados. A mudança sinaliza que até servidores de preprints estão adotando filtros mais rigorosos para equilibrar abertura, velocidade e integridade científica.
Link: https://blog.psyarxiv.com/2026/03/23/updates-to-psyarxiv-moderation-policies/
6. Elsevier entra em ação contra a Meta por uso de artigos científicos no treinamento de IA
A Elsevier se juntou a uma ação coletiva contra a Meta, alegando que artigos científicos protegidos por direitos autorais foram copiados e usados no treinamento do modelo Llama, inclusive a partir de bases como LibGen e Sci-Hub. O caso leva a disputa entre publishers e empresas de IA para o centro da governança do conhecimento científico, com possíveis efeitos sobre copyright, acesso a dados e o futuro do treinamento de modelos.
Link: https://www.nature.com/articles/d41586-026-01481-0
Governança do fomento e avaliação da pesquisa
7. Mais de mil cientistas contestam novas regras do European Research Council
Mais de 1.000 pesquisadores assinaram uma carta pedindo que o European Research Council volte atrás nas novas regras que endurecem a reapresentação de propostas rejeitadas. Os signatários argumentam que, em vez de simplesmente restringir quem pode reaplicar, o ERC deveria reformar o processo com etapas de triagem mais eficientes para enfrentar o excesso de demanda sem penalizar de forma excessiva os candidatos.
8. European Research Council recua após reação da comunidade científica
O European Research Council voltou atrás nas regras mais duras de reapresentação de propostas para 2027, após forte reação de pesquisadores que consideraram as mudanças excessivamente punitivas e retroativas. O recuo preserva as regras anteriores para a maioria das bolsas individuais, mas o debate sobre como lidar com o excesso de propostas e a pressão sobre os avaliadores continua aberto para os próximos anos.
9. Novo PCI destina R$ 120 milhões para fortalecer pesquisas em unidades do MCTI
O CNPq lançou a edição 2026 do Programa de Capacitação Institucional, com R$ 120 milhões do FNDCT para financiar projetos de pesquisa em unidades vinculadas ao MCTI ao longo de quatro anos. O novo modelo substitui cotas fixas por seleção competitiva por projetos, amplia a flexibilidade de execução e reserva ao menos 30% dos recursos para instituições do Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Talento, liberdade científica e autonomia institucional
10. União Europeia vai aos EUA disputar cientistas e investimentos
Em visita a San Francisco, a comissária europeia Ekaterina Zaharieva apresentou a União Europeia como um ambiente mais estável, previsível e favorável à ciência e à inovação para pesquisadores e investidores baseados nos EUA. A iniciativa reflete a intensificação da disputa internacional por talentos, impulsionada pelos cortes e pressões recentes sobre a ciência americana, e mostra a liberdade acadêmica e o financiamento estável como ativos estratégicos da Europa.
11. Alemanha, Holanda e Itália atraem talentos em IA, enquanto França perde espaço
Um novo levantamento indica que Alemanha, Holanda e Itália registraram forte crescimento no número de pesquisadores e engenheiros de IA em 2025, enquanto a França perdeu competitividade e viu sua base de talentos encolher. A notícia sugere uma reconfiguração do mapa europeu de atração de especialistas, em um contexto em que a Europa começa até a reter mais profissionais de tecnologia do que perde para os EUA.
12. Defensores de acadêmicos pedem mais apoio europeu a pesquisadores em risco
Organizações de apoio a acadêmicos ameaçados defendem que o financiamento europeu à pesquisa seja mais flexível e ofereça compromissos de prazo mais longo para acolher scholars at risk. O caso do Afeganistão aparece como teste importante para saber se a União Europeia conseguirá adaptar seus instrumentos de fomento e proteção a pesquisadores que fogem de perseguição ou conflito.
13. Universidades britânicas adotam “neutralidade política” diante de novas regras de liberdade de expressão
Cerca de um quinto das universidades do Reino Unido passou a aderir publicamente à ideia de “neutralidade política” como forma de se adaptar às novas exigências sobre liberdade de expressão nos campi. A tendência sugere uma tentativa de reduzir riscos institucionais em temas controversos, mas também reacende o debate sobre até que ponto a neutralidade protege a universidade ou esvazia seu papel público.
14. Governo Trump esvazia conselhos científicos, diz análise da Natura
Uma análise da Nature mostra que a administração Trump extinguiu mais de 100 comitês consultivos ligados a agências científicas federais e tornou menos transparentes vários dos que permaneceram. A medida enfraquece o acesso do governo a expertise externa independente e levanta preocupações sobre a politização da ciência, a redução do escrutínio público e a deterioração da governança científica federal.
Link: https://www.nature.com/articles/d41586-026-01301-5
15. Academia Brasileira de Ciências completa 110 anos e reafirma papel estratégico da ciência no Brasil
Ao celebrar seus 110 anos, a Academia Brasileira de Ciências foi apresentada como uma instituição central na defesa da liberdade científica, do investimento público em pesquisa e da formulação de políticas baseadas em evidências.
Inovação e governança tecnológica
16. SciBiz 2026 aposta na conexão entre pesquisa, inovação e mercado
O SciBiz 2026, realizado na USP, foi apresentado como um dos principais fóruns latino-americanos para aproximar universidade, startups, investidores e formuladores de políticas públicas. A programação revela uma agenda de science policy voltada à transformação do conhecimento em inovação, com foco em temas estratégicos como IA, transição energética, saúde, computação quântica e deeptechs.
17. Edital de R$ 100 milhões busca fortalecer cadeia nacional de semicondutores
O MCTI lançou uma chamada pública de R$ 100 milhões para apoiar projetos empresariais inovadores em semicondutores, com foco em tecnologias estratégicas e alto risco tecnológico. A iniciativa integra o programa Mais Inovação Brasil e procura aproximar empresas e ICTs para transformar pesquisa em soluções produtivas, reforçando a capacidade nacional em um setor-chave para a soberania tecnológica.
18. Acordo do AI Omnibus adia obrigações centrais do AI Act e reforça agenda de simplificação
O acordo político sobre o AI Omnibus posterga a aplicação das exigências para sistemas de IA de alto risco e flexibiliza alguns deveres do AI Act, em nome de uma agenda mais ampla de simplificação regulatória e competitividade. Embora preserve a arquitetura central do regulamento, o texto amplia o uso de dados sensíveis para mitigação de viés, suaviza obrigações de alfabetização em IA e revela a crescente força de pressões industriais na reconfiguração da governança europeia da IA.
Link: https://www.techpolicy.press/what-the-eu-ai-omnibus-deal-changes-for-the-ai-act-and-what-lies-ahead/
19. Nova versão do BrCris reforça visibilidade da ciência brasileira
O MCTI e o Ibict lançaram uma nova versão do BrCris, plataforma que integra informações sobre pesquisadores, instituições e publicações científicas no Brasil. Com mais escala e novas funcionalidades, a iniciativa busca fortalecer a gestão da informação científica, ampliar a transparência e apoiar análises estratégicas sobre o sistema nacional de pesquisa.
PROJETOS DE LEI
Ao final desta edição, apresentamos uma tabela com projetos de lei em tramitação. Todos abordam temas relevantes para a governança científica, tais como financiamento, relações com fundações de apoio, regime previdenciário de bolsistas e participação feminina em carreiras científicas. Convidamos nossos leitores a sugerir projetos de lei que mereçam atenção, sejam eles federais, estaduais ou mesmo municipais.

Leia mais
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