Comparsas científicos: quantas vezes voltamos a publicar com o mesmo colega?

Entre 10,6 milhões de duplas de coautores no Lattes, só 2,4% somam dez ou mais trabalhos; poucas parcerias atravessam décadas

Por Jesús P. Mena-Chalco

Conta-se que, na primeira metade do século XX, um matemático ficou surpreso ao conhecer John Littlewood. Ele acreditava que Littlewood não existia, que era apenas um pseudônimo utilizado por Godfrey Hardy para publicar alguns de seus trabalhos. A confusão tinha uma explicação e era porque os dois matemáticos colaboraram durante décadas e assinaram juntos cerca de uma centena de artigos. A parceria foi tão marcante que se dizia haver três grandes matemáticos: Hardy, Littlewood e Hardy-Littlewood.

A história revela uma característica importante da ciência: algumas descobertas nascem de encontros passageiros, enquanto outras são construídas por parcerias que atravessam décadas. Quantas duplas como Hardy e Littlewood existem na ciência brasileira? E o que podemos descobrir quando observamos quantas vezes dois pesquisadores publicam juntos? Por quanto tempo essa colaboração permanece? Neste artigo, procuro trazer alguns dados para responder a essas perguntas.

Para isso, analisei as relações de coautoria registradas nos currículos da Plataforma Lattes, considerando artigos em periódicos, trabalhos em eventos, capítulos de livros e livros completos. Foram identificadas aproximadamente 10,6 milhões de duplas de pesquisadores que compartilharam pelo menos uma publicação.

O primeiro resultado chama a atenção: 68,2% dessas duplas aparecem juntas em apenas uma publicação. Cerca de um terço voltou a publicar pelo menos uma vez, mas, quando procuramos parcerias com dez ou mais trabalhos compartilhados, a proporção cai para apenas 2,4%. As colaborações muito frequentes são ainda mais raras: somente 2.269 duplas, entre os milhões de relações identificadas, aparecem juntas em cem ou mais publicações.

Esses números não significam que uma colaboração registrada em apenas um artigo tenha sido menos importante. Um único trabalho pode representar anos de pesquisa, assim como dezenas de artigos podem resultar da participação em grandes equipes científicas. Encontrar um parceiro para publicar uma vez é muito mais frequente do que voltar a publicar repetidamente com a mesma pessoa.

Figura 1 – Distribuição das duplas segundo a quantidade de publicações compartilhadas e o intervalo entre a primeira e a última publicação conjunta. A maioria das relações de coautoria aparece em apenas um trabalho e em um único ano.

Mas será que publicar muitas vezes com alguém significa manter uma parceria por muito tempo? Para investigar essa questão, considerei também o intervalo entre a primeira e a última publicação conjunta. Os resultados mostram que 74,1% das duplas publicaram juntas em apenas um ano. Por outro lado, aproximadamente 3,3% apresentam um intervalo de pelo menos dez anos entre o primeiro e o último trabalho.

Existe, porém, uma diferença entre o intervalo de tempo que separa a primeira e a última publicação conjunta e o número de anos em que os pesquisadores efetivamente publicaram juntos. Por exemplo, uma dupla pode ter publicado um artigo em 2005 e outro em 2025. Embora exista um intervalo de 20 anos entre essas publicações, há registros de produção conjunta em apenas dois anos. Isso não significa que a parceria tenha permanecido ativa durante todo esse período. Quando contamos os anos distintos em que efetivamente houve publicações compartilhadas, apenas 0,6% das duplas alcançam dez ou mais anos. A intensidade e a duração, portanto, evidenciam aspectos diferentes de uma mesma parceria.

O mapa da Figura 2 ajuda a visualizar essa relação. Entre as duplas cujas publicações ocorreram em um único ano, 92,1% compartilharam apenas um trabalho. Já entre aquelas que reaparecem ao longo de décadas, encontramos uma diversidade maior de intensidades, incluindo parcerias com dezenas de publicações. Naturalmente, quanto maior o intervalo observado, mais oportunidades existem para acumular trabalhos.

Figura 2 – Relação entre o número de publicações compartilhadas e o intervalo entre a primeira e a última publicação conjunta. Cada coluna mostra como as duplas daquela faixa temporal se distribuem segundo a quantidade de trabalhos.

Existem exemplos brasileiros que ajudam a dar dimensão a esses números. Os pesquisadores Carlos Hubinger Tokarnia e Jürgen Döbereiner, da Medicina Veterinária, construíram uma longa trajetória de colaboração científica, com contribuições importantes para o conhecimento das doenças de animais de produção. Nos registros do Lattes, identifiquei 95 publicações compartilhadas entre 1956 e 2014. São 59 anos entre o primeiro e o último trabalho, com publicações conjuntas em 37 anos distintos.

Outra parceria notável é a de Marlies Sazima e Ivan Sazima, pesquisadores vinculados, respectivamente, à Botânica e à Zoologia. Os registros mostram 59 publicações conjuntas entre 1975 e 2026, distribuídas por 35 anos distintos.

Na Universidade de São Paulo, a parceria entre Maria Júlia Manso Alves e Walter Colli também atravessou cinco décadas. Em 1974, Maria Júlia concluiu seu doutorado sob a orientação de Colli. Juntos, investigaram o Trypanosoma cruzi, parasita causador da doença de Chagas, e sua interação com as células do hospedeiro. No Lattes, identifiquei 65 publicações compartilhadas entre 1974 e 2024, distribuídas por 35 anos distintos. São 51 anos entre o primeiro e o último trabalho, numa colaboração entre a Parasitologia e a Bioquímica.

Essas histórias mostram que algumas parcerias atravessam boa parte de uma trajetória científica, contribuindo para a construção do conhecimento ao longo de décadas, mesmo entre pesquisadores de diferentes áreas.

Isso nos leva a uma terceira questão: pesquisadores de uma mesma área tendem a publicar juntos com maior frequência? Para explorar essa possibilidade, comparei as duplas formadas por pessoas que declaram a mesma primeira área de atuação no Lattes com aquelas de áreas diferentes.

Os resultados mostram que, entre pesquisadores da mesma área, 3,43% das duplas alcançaram dez ou mais publicações conjuntas. Entre pesquisadores de áreas diferentes, essa proporção foi de 2,03%. A diferença também aparece quando observamos o tempo de atividade: 0,98% das duplas da mesma área publicaram juntas em pelo menos dez anos distintos, contra 0,46% das duplas de áreas diferentes.

Figura 3 – Frequência de parcerias com dez ou mais publicações e com atividade conjunta registrada em pelo menos dez anos, segundo a primeira área declarada pelos pesquisadores.

A proximidade disciplinar parece, portanto, estar associada à repetição das parcerias. Isso não significa que ela seja sua causa. As diferentes áreas possuem tradições de publicação, tamanhos de equipes e formas de colaboração bastante distintas. Além disso, trabalhar em áreas diferentes não impede que dois pesquisadores mantenham uma relação científica duradoura, como mostram alguns dos exemplos encontrados.

A história de Hardy e Littlewood ficou conhecida pela quantidade de trabalhos que publicaram assim como pela continuidade de uma colaboração que acabou adquirindo identidade própria. Ao observar a ciência brasileira, encontramos milhões de relações de coautoria, algumas passageiras, outras que reaparecem durante anos e algumas (marcantes) que atravessam décadas.

Por trás de cada conexão em uma rede científica existem pessoas, ideias, encontros e trajetórias, sendo que os números aqui apresentados revelam apenas parte dessas interações. O que faz duas pessoas continuarem produzindo ciência juntas durante meio século?

Nota técnica

O estudo utilizou dados da Base Lattes, considerando quatro modalidades de produção bibliográfica: artigos em periódicos, trabalhos em eventos, capítulos de livros e livros completos, com registros até 2026. A partir das publicações deduplicadas, foi construída uma rede de coautoria na qual os pesquisadores são identificados por seus IDs Lattes. Cada ligação representa uma dupla que compartilhou pelo menos uma publicação. Foram identificadas 10.622.802 duplas distintas. Como uma publicação com vários autores pode gerar múltiplas duplas, a soma das publicações compartilhadas não corresponde ao número de trabalhos científicos distintos.

Para cada dupla, foram calculados o número de publicações conjuntas, o primeiro e o último ano de publicação e a quantidade de anos distintos com produção compartilhada. O intervalo entre a primeira e a última publicação não indica necessariamente colaboração contínua. A análise utilizou as séries temporais registradas na rede de coautoria, e os totais foram submetidos a verificações computacionais de consistência entre as modalidades e as distribuições anuais.

A comparação disciplinar utilizou a Primeira Área declarada nos currículos na data da coleta, distinguindo duplas da mesma área, de áreas diferentes e com informação insuficiente. Aproximadamente 20,5% das duplas pertencem à última categoria e foram excluídas das comparações disciplinares. Os resultados devem ser interpretados considerando as diferentes práticas de publicação entre áreas, a cobertura dos currículos e a influência das grandes equipes científicas. As relações identificadas representam padrões observados de coautoria, não medidas diretas da qualidade, da importância ou das causas das colaborações.

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