O longo caminho até a primeira publicação na Nature

Uma análise de 2.438 currículos Lattes mostra que a estreia no periódico costuma vir depois de anos de formação, dezenas de trabalhos anteriores e uma ampliação importante das redes de colaboração.

Por Jesús P. Mena-Chalco

No início dos anos 2000, quando eu começava minha pós-graduação, um resultado científico brasileiro ganhou uma repercussão pouco comum. Um grande grupo de pesquisadores havia conseguido sequenciar o genoma da Xylella fastidiosa, bactéria responsável pela clorose variegada dos citros, o chamado “amarelinho”, doença que atingia os laranjais. Era uma façanha importante para a ciência brasileira e, em 2000, o trabalho foi publicado na Nature, uma das revistas científicas mais conhecidas do mundo.

Lembro daquele episódio porque, para quem estava entrando na pesquisa, havia algo de extraordinário em ver um trabalho realizado no Brasil alcançar tamanha visibilidade. Mas, olhando hoje para aquele artigo, uma pergunta diferente me interessa. O que existe antes de uma publicação como aquela? Quanto caminho já foi percorrido até que um pesquisador apareça nas páginas da Nature? Há uma trajetória que possa ser observada, da formação às primeiras publicações, do doutorado aos anos seguintes de atividade científica?

Foi pensando nisso que procurei, nos Currículos Lattes, pesquisadores associados a publicações na Nature. Em vez de olhar apenas para o ponto de chegada, tentei voltar alguns passos e reconstruir o que havia antes dele.

Depois de identificar e conferir os registros, foram reunidas 1.728 publicações associadas a 2.438 pesquisadores com Currículo Lattes, entre 1946 e 2026. Para cerca de três quartos deles, a passagem pela Nature aparece uma única vez no currículo. Apenas 24% estão associados a duas ou mais publicações na revista. Isso já sugere que, para a maioria, trata-se de um acontecimento relativamente raro dentro de uma trajetória muito maior.

A distribuição ao longo do tempo também conta uma história interessante. A Figura 1 mostra o ano em que cada pesquisador apareceu pela primeira vez na Nature. Um ponto interessante é o pico de 2000. Naquele ano, 139 pesquisadores tiveram sua primeira publicação na revista e 104 estavam associados justamente ao trabalho da Xylella. Quase três quartos das primeiras aparições daquele ano estão ligadas a esse único grande empreendimento científico. De certa forma, uma lembrança que ficou marcada para quem acompanhava a ciência brasileira na época também deixou uma marca muito clara nos dados.

Figura 1. Pesquisadores segundo o ano de sua primeira publicação na Nature.

Mas saber quando essas pessoas chegaram à revista ainda não responde à pergunta principal. Para isso, olhei a trajetória por três pontos de partida diferentes. O primeiro foi a conclusão da graduação. O segundo, a primeira publicação em periódico científico. O terceiro, a conclusão do doutorado. São três relógios distintos para observar o mesmo ponto de chegada.

Os resultados estão resumidos na Figura 2. Entre os casos em que foi possível observar cada trajetória, a mediana foi de 15 anos entre a graduação e a primeira publicação na Nature, 11 anos a partir da primeira publicação em periódico e 8 anos a partir da conclusão do doutorado. Mais importante do que a mediana isolada é perceber a extensão dessas trajetórias. Metade dos pesquisadores chegou à primeira Nature entre 9 e 23 anos depois da graduação, entre 6 e 19 anos depois da primeira publicação e entre 4 e 16 anos depois do doutorado.

Figura 2. Três tempos da trajetória até a primeira publicação na Nature.

O que aparece, portanto, é um caminho geralmente longo. Entre os 2.265 pesquisadores para os quais foi encontrada uma publicação anterior, cerca de 59% chegaram à primeira Nature pelo menos dez anos depois de seu primeiro artigo em periódico. Para quase um quarto, esse intervalo foi de vinte anos ou mais. E não se tratava apenas de tempo transcorrido. Antes da primeira Nature, a mediana era de 16 publicações em periódicos. Quase 46% dos pesquisadores já tinham pelo menos vinte publicações anteriores; cerca de 12% tinham cem ou mais.

O doutorado reforça essa imagem. Mais de 90% dos pesquisadores têm doutorado registrado no Lattes e, para 78% de todo o conjunto, ele já havia sido concluído até o ano da primeira publicação na Nature. Isso não significa que exista uma etapa obrigatória. Há pessoas que aparecem na revista ainda durante o doutorado e há trajetórias bem mais rápidas. Em 7% dos currículos, por exemplo, não encontramos nenhuma publicação em periódico em ano anterior à primeira Nature. A trajetória longa é predominante, mas está longe de ser uma regra sem exceções.

Há ainda outra característica que me parece particularmente interessante: a escala da colaboração muda. Antes da Nature, esses pesquisadores publicavam em equipes com mediana de cinco autores. No primeiro ano em que aparecem na revista, a mediana sobe para 18 autores. Quando a comparação é feita pesquisador a pesquisador, em 77,7% dos casos a equipe da primeira Nature era maior do que a equipe típica de suas publicações anteriores.

Talvez a própria Xylella seja uma boa imagem para isso. No caso de grandes projetos científicos, resultados dessa escala podem surgir do encontro de trajetórias já construídas, competências diferentes, infraestrutura, financiamento e redes de colaboração capazes de enfrentar problemas maiores.

Também é importante lembrar que esse retrato não representa igualmente todas as áreas do conhecimento. Ciências Biológicas respondem por 48% dos pesquisadores, Ciências Exatas e da Terra por 22% e Ciências da Saúde por quase 12%. Juntas, essas três grandes áreas concentram cerca de 82% do conjunto. Portanto, esses tempos não devem ser lidos como uma regra geral de carreira científica, muito menos como uma receita para publicar em uma revista específica.

Na verdade, talvez essa seja justamente a parte mais interessante deste exercício. Não procurei descobrir uma fórmula para chegar à Nature, nem usar a revista como medida de qualidade científica. O objetivo foi olhar para trás. Quando vemos apenas uma publicação muito visível, é fácil esquecer todos os anos de formação, os trabalhos anteriores, as tentativas, as colaborações e as pessoas que construíram aquela trajetória.

A publicação é o ponto visível; o currículo permite enxergar o caminho anterior.

Nota técnica

A análise partiu de uma base com pouco mais de 6,2 milhões de registros de artigos em periódicos presentes nos Currículos Lattes. A identificação das publicações na Nature não se baseou apenas no nome da revista. Também foram considerados os ISSNs e padrões de DOI, uma vez que existem diversos periódicos do grupo Nature e o prefixo 10.1038, isoladamente, não é suficiente para identificar a revista Nature. Após uma primeira seleção, os registros foram novamente conferidos e deduplicados, inclusive para tratar pequenas variações de título, DOI ou preenchimento entre currículos diferentes. O conjunto final reuniu 1.728 publicações, associadas a 2.438 pesquisadores com Currículo Lattes. O artigo sobre o genoma da Xylella fastidiosa, por exemplo, aparecia em mais de uma variante bibliográfica e foi tratado como uma única publicação.

Em seguida, a base completa foi novamente percorrida para reconstruir a trajetória de cada pesquisador. Foram recuperadas suas publicações em periódicos científicos e também as informações de formação acadêmica registradas no Lattes. O ano foi adotado como unidade de tempo. Assim, uma publicação ocorrida no mesmo ano da primeira Nature não foi considerada anterior, pois o Lattes não permite estabelecer com segurança a ordem dos acontecimentos dentro de um mesmo ano. Para o doutorado, foi utilizado o primeiro registro com ano de conclusão válido. Também não foi estabelecido um recorte temporal. Há publicações muito anteriores ao lançamento da Plataforma Lattes, em 1999, já que os pesquisadores podem registrar retrospectivamente sua produção. Esses registros foram mantidos, embora essa característica deva ser considerada na leitura da série histórica (a base utilizada corresponde a uma fotografia de 2026 e, por isso, os registros referentes a esse último ano são necessariamente parciais).

Trata-se, portanto, de uma análise descritiva das trajetórias encontradas, e não de uma tentativa de explicar causalmente por que alguém publica na Nature. Não foi utilizado grupo de controle, nem se pretende construir uma receita para chegar à revista. 

Alguns resultados ficaram fora do texto principal justamente para preservar esse foco. Entre os pesquisadores identificados, 91,7% têm doutorado registrado, 58,1% registram pelo menos um pós-doutorado e, entre aqueles com informação sobre bolsa no primeiro doutorado, cerca de três quartos indicam ter recebido financiamento. CAPES, CNPq e FAPESP aparecem com destaque entre as agências informadas. Esses números ajudam a compor o contexto de formação dessas trajetórias, mas não devem ser interpretados como condições necessárias para uma publicação na Nature.

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