O que costuma vir primeiro: o doutorado ou a primeira publicação?
Analisamos 491 mil currículos Lattes para entender o início das trajetórias de publicação científica no Brasil.
Analisamos 491 mil currículos Lattes para entender o início das trajetórias de publicação científica no Brasil.

Por Jesús P. Mena-Chalco
A defesa de doutorado costuma ser um dos momentos mais marcantes da vida acadêmica. Há quem se lembre da banca, das perguntas, do alívio ao final. Entretanto, até chegar ali, existe um caminho longo, feito de leituras, tentativas, dúvidas, experimentos e muitas conversas. São trajetórias diferentes, que nem sempre começam na universidade ou seguem o mesmo ritmo. O doutorado oferece a oportunidade de desenvolver uma contribuição original e apresentá-la de forma sistemática à comunidade científica. Só que a circulação de ideias não precisa esperar pela defesa da tese.
Foi essa a curiosidade que me levou a esta nota: quando aparece a primeira publicação na trajetória de um pesquisador? Antes ou depois do doutorado? A resposta intuitiva parece ser “antes”, mas quanto tempo antes? E o que vem primeiro: um artigo em periódico, um trabalho em evento, um capítulo ou um livro? Também me interessava saber se esse percurso mudou entre gerações e se seria semelhante em áreas tão diferentes quanto Medicina, História e Ciência da Computação.
Para explorar essas perguntas, examinei os registros de 490.930 pesquisadores com doutorado concluído e ano de titulação válido na base de Currículos Lattes. Para cada pessoa, identifiquei o ano da primeira publicação entre quatro modalidades: artigos em periódicos, trabalhos completos publicados em eventos, livros completos e capítulos de livro. Comparei esse ano com as datas de ingresso e conclusão do doutorado. A primeira área de atuação declarada no currículo foi usada para as comparações disciplinares. Não contei quantas publicações cada pesquisador produziu: procurei apenas o registro mais antigo em cada modalidade.
Entre os doutores analisados, 94,8% tinham pelo menos uma publicação nessas quatro modalidades. Para 88,8%, a primeira publicação registrada apareceu em ano anterior à conclusão do doutorado. E há um detalhe que me parece ainda mais interessante: 70,6% já tinham publicado antes do ano de ingresso no doutorado. Outros 11,2% começaram em anos situados entre o ingresso e a conclusão. A mediana da distância entre a primeira publicação e a titulação foi de sete anos: metade dos pesquisadores com produção registrada iniciou esse percurso pelo menos sete anos antes de concluir o doutorado.

Figura 1 – Quando começa a publicação científica? Distribuição da primeira publicação em relação ao ingresso e à conclusão do doutorado e intervalo, em anos, até a titulação.
Isso não quer dizer que a pesquisa de todas essas pessoas tenha começado sete anos antes da defesa. Uma investigação pode levar tempo até virar publicação, e há atividades importantes que não aparecem nesses quatro tipos de registro. Significa, de maneira mais precisa, que a comunicação bibliográfica registrada muitas vezes começa bem antes do título. Também preservei, na análise, os casos em que a primeira publicação ocorreu no mesmo ano do ingresso ou da conclusão: só com o ano não seria possível saber o que veio primeiro.
Por onde começa esse caminho? Entre todos os doutores analisados, 46,6% tiveram um artigo em periódico como primeira publicação registrada, seguidos por aqueles que começaram com trabalhos completos em eventos (29,4%), capítulos de livros (6,6%) e livros (3,5%).. Em outros 8,8%, duas ou mais modalidades apareceram no mesmo primeiro ano; não faria sentido escolher uma delas arbitrariamente. Os 5,2% restantes não tinham publicação registrada nessas categorias. Mas esses percentuais gerais escondem diferenças importantes.
As diferenças entre áreas são expressivas. Na Imunologia, 83,3% dos doutores tiveram um artigo em periódico como primeira modalidade de publicação; na Odontologia, essa proporção chegou a 79,3%. Na Engenharia Elétrica, o quadro é bastante diferente: 70,8% começaram por trabalhos completos em eventos, proporção próxima à observada na Ciência da Computação (67,7%). Em áreas como Educação, História e Direito, livros e capítulos também ocupam espaços importantes. A segunda figura apresenta 66 áreas com pelo menos mil doutores, ordenadas pela proporção de pesquisadores que começaram por artigos em periódicos. O contraste ajuda a mostrar que não existe uma única porta de entrada para a comunicação científica.

Figura 2 – Primeira modalidade de publicação registrada nas 66 áreas de atuação com pelo menos mil doutores, ordenadas pela proporção de primeiras publicações em periódicos. Os percentuais consideram todos os doutores de cada área, inclusive aqueles sem publicações nas modalidades analisadas.
Por que vale a pena conhecer essas diferenças? Porque os modos de comunicar resultados fazem parte das práticas de cada comunidade acadêmica. Um trabalho completo publicado nos anais de um congresso pode ter papel central na circulação de resultados em determinada área, enquanto em outra a revista científica é o principal espaço de comunicação. Livros e capítulos também cumprem funções relevantes.
Quando adotamos uma modalidade como referência universal, corremos o risco de tornar menos visíveis os percursos de pesquisadores formados em outras tradições de publicação. Isso não significa que toda publicação tenha o mesmo alcance ou qualidade; significa que precisamos entender o contexto antes de comparar trajetórias. Reconhecer essas diferenças é importante especialmente quando utilizamos indicadores de publicação para acompanhar trajetórias acadêmicas ou comparar pesquisadores de diferentes áreas.
Quis observar também se o momento da primeira publicação mudou entre as gerações. Entre os doutores titulados na década de 1990, 51,8% possuíam publicação anterior ao ano de ingresso no doutorado. Essa proporção chegou a 62,5% entre os titulados nos anos 2000, 73,9% nos anos 2010 e 80,3% entre aqueles titulados de 2020 a 2026. Quando a referência é a conclusão do doutorado, também encontramos um crescimento expressivo: de 76,6% para 94,5% entre o primeiro e o último período analisado. A diferença chama a atenção, mas sua interpretação pede alguns cuidados.

Figura 3 – Publicar antes do doutorado tornou-se mais frequente? Proporção de pesquisadores com publicação anterior ao ingresso ou à conclusão do doutorado, segundo a década de titulação.
Seria precipitado concluir que esses números provam uma pressão crescente para publicar cada vez mais cedo. O Lattes registra trajetórias retrospectivamente, e currículos de gerações mais antigas podem não trazer toda a produção do início da carreira. Também mudaram os programas de pós-graduação, as oportunidades de publicação e os hábitos de preenchimento da plataforma. Além disso, o período de 2020 a 2026 ainda não corresponde a uma década completa. A figura mostra uma mudança no que está registrado, não permitindo identificar, por si só, as causas da mudança.
Essa é, para mim, uma das qualidades mais interessantes do Currículo Lattes. Ele nos permite olhar para a trajetória, e não apenas para a data formal em que uma pessoa recebeu o título de doutor. Observar quase meio milhão de percursos ajuda a perceber padrões que dificilmente enxergaríamos em histórias individuais.
No fim, esta nota não diz quem publicou mais, quem começou melhor ou quem construiu a carreira mais bem-sucedida. Ela apresenta a pergunta: quando e por onde começamos a comunicar o que pesquisamos? A defesa de doutorado é um marco importante. Mas, para muitos doutores, a conversa com a comunidade científica já havia começado bastante tempo antes.
A análise foi realizada a partir dos registros da Plataforma Lattes, utilizando uma base coletada em agosto de 2026. Foram considerados 490.930 pesquisadores com doutorado concluído e ano de titulação válido. Para cada pessoa, foram identificados os anos de ingresso e conclusão do doutorado, considerando a primeira titulação nos casos de múltiplos doutorados. As comparações disciplinares utilizaram a primeira área de atuação informada no currículo.
Foram examinadas quatro modalidades de produção bibliográfica: artigos em periódicos, trabalhos completos em eventos, capítulos de livros e livros completos. Para cada pesquisador, identificou-se o ano mais antigo de publicação em cada modalidade e, posteriormente, o primeiro ano entre todas elas. Quando duas ou mais modalidades coincidiam nesse ano, foram agrupadas na categoria múltiplas modalidades. Registros com datas inválidas, incluindo aqueles com ano 1900, foram desconsiderados. Os pesquisadores sem publicações nas quatro modalidades permaneceram na análise.
Os intervalos foram calculados comparando o ano da primeira publicação com os anos de ingresso e conclusão do doutorado. As publicações ocorridas no mesmo ano desses marcos foram tratadas separadamente, pois não seria possível estabelecer sua ordem cronológica. Também foram realizadas comparações entre áreas do conhecimento e gerações de doutores, além de verificações de consistência dos registros. Como as informações são declaradas pelos próprios pesquisadores, a primeira publicação registrada não corresponde necessariamente à primeira publicação efetiva, especialmente em trajetórias mais antigas.
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