Mas isso não significa que eles foram improdutivos: o número de papers é uma métrica simplista, que não leva em consideração as particularidades de cada área.
Por Jesús P. Mena-Chalco

Este é o segundo post da série “A ciência brasileira vista pelos seus dados”, de Jesús P. Mena-Chalco, professor e pesquisador da Universidade Federal do ABC (UFABC). Os conteúdos vão sair semanalmente no Observatório de Políticas Científicas do IQC. Para acompanhar, acesse nosso site ou assine a newsletter.
As publicações científicas podem ser entendidas como um dos principais elementos usados para comunicar a ciência. Por meio delas, resultados são apresentados, métodos são compartilhados, ideias circulam e passam a fazer parte de uma memória coletiva da atividade científica.
Nas avaliações e caracterizações do fazer científico, comumente são considerados, em particular, os artigos publicados em periódicos. Há boas razões para isso. Uma delas é prática: artigos em periódicos são relativamente fáceis de localizar, organizar e comparar em bases bibliográficas. Outra é que, em muitas áreas, esse tipo de publicação representa uma forma consolidada de comunicação dos resultados de pesquisa, frequentemente associada a processos editoriais e de avaliação por pares.
A fotografia da produção científica é frequentemente construída tendo o artigo em periódico como ator principal. Mas o que acontece se olharmos apenas para ele? O que desaparece dessa fotografia? E, mais concretamente, quantas pessoas deixariam de aparecer se considerássemos somente aquelas que publicaram pelo menos um artigo em periódico?
Nesta nota exploro justamente essa pergunta: e se o Lattes mostrasse apenas artigos em periódicos?
O Currículo Lattes é particularmente interessante para esse exercício porque registra uma diversidade de atividades que dificilmente aparece de forma integrada em outras bases. Além dos artigos, encontramos livros, capítulos, trabalhos técnicos e outras formas de produção.
Para tornar a comparação mais cuidadosa, concentrei a análise nos doutores e em uma janela recente, de 2021 a 2025. Adotei ainda uma definição deliberadamente conservadora do que considerar como produção. Foram deixadas de fora apresentações e resumos em eventos, cursos ministrados, entrevistas para a mídia, websites, materiais didáticos e outras categorias que poderiam gerar discussão sobre até que ponto deveriam ser tratadas como produto científico.
Permaneceram modalidades mais difíceis de contestar como formas substantivas de produção: artigos em periódicos, livros e capítulos, trabalhos e relatórios técnicos, processos e produtos tecnológicos, software, produção artística e registros de propriedade intelectual.
Mesmo apertando bastante esse filtro, o resultado chama atenção.
Entre 2021 e 2025, 326.799 doutores apresentaram pelo menos uma produção desse núcleo mais restrito no Currículo Lattes. Desse conjunto, 38.625 não registraram nenhum artigo em periódico no mesmo período.
Isso corresponde a 11,8%.
Em outras palavras, mesmo usando uma definição bastante conservadora de produção, aproximadamente um em cada oito doutores com produção registrada desapareceria de uma fotografia construída exclusivamente a partir de artigos em periódico.
Poderíamos imaginar que esse resultado decorresse simplesmente de currículos antigos ou pouco atualizados. A análise não aponta nessa direção. Quando consideramos somente os currículos atualizados desde 2025, a proporção continua em 10,4%. A atualização do currículo reduz um pouco o valor, como seria esperado, mas não elimina o fenômeno.
O resultado nacional, entretanto, esconde uma diferença ainda mais interessante: uma fotografia da ciência baseada apenas em artigos em periódico não perde a mesma coisa em todas as áreas do conhecimento.
Em Linguística, Letras e Artes, 27,9% dos doutores com produção substantiva registrada entre 2021 e 2025 não possuem artigo em periódico no período. Nas Ciências Humanas e nas Ciências Sociais Aplicadas, a proporção está próxima de 19%. Nas Ciências Biológicas, é de apenas 4,0%.

Figura 1: O que se perde ao olhar apenas para artigos varia entre as áreas. Proporção de doutores com produção substantiva registrada no Currículo Lattes entre 2021 e 2025, mas sem nenhum artigo em periódico no mesmo período, segundo a primeira grande área de atuação. A linha tracejada indica o valor para o conjunto da base: 11,8%.
A diferença entre Linguística, Letras e Artes e Ciências Biológicas é de quase sete vezes. Isso não significa que uma área seja mais ou menos científica do que outra. Significa que as áreas não produzem e não comunicam conhecimento da mesma maneira.
Em algumas comunidades, o artigo em periódico ocupa uma posição quase central. Em outras, livros, capítulos, trabalhos técnicos, obras artísticas ou produtos tecnológicos têm presença muito mais significativa. Quando utilizamos a mesma lente para todas elas, a distorção também não é a mesma.
Mas o que exatamente produzem os 38.625 doutores que aparecem no nosso núcleo restrito e não possuem artigo em periódico?
A resposta ajuda a afastar a impressão de que estamos falando apenas de registros marginais. Cerca de 77% deles possuem livros ou capítulos registrados no período. Aproximadamente 34% apresentam produção técnica. Pouco mais de 10% registram produção artística e cerca de 3% possuem produtos relacionados a tecnologia ou propriedade intelectual.

Figura 2: O que produzem os doutores sem artigo em periódico? Composição das produções registradas pelos 38.625 doutores que apresentaram pelo menos uma produção substantiva entre 2021 e 2025, mas nenhum artigo em periódico no período. As categorias não são mutuamente exclusivas: um mesmo currículo pode apresentar mais de um tipo de produção.
Quando olhamos as modalidades individualmente, aparecem mais de 21 mil doutores com capítulos de livros, cerca de 12 mil com livros completos e mais de 11 mil com trabalhos técnicos. O que encontramos são pessoas cuja produção assume outras formas além de publicações em periódicos.
Também testei o quanto o resultado dependia da definição de produção utilizada. Com um conjunto mais amplo de registros do Lattes, 17,2% dos doutores com alguma produção no período não apresentam artigo em periódico. Ao retirar apresentações e resumos, a proporção cai para 15,2%. Retirando também toda produção ligada a eventos, chega a 14,5%. Finalmente, com o núcleo mais restrito utilizado nesta análise, chegamos aos 11,8%.
O efeito diminui à medida que tornamos o critério mais exigente, como deveria acontecer. Mas ele não desaparece.
Artigos em periódico são fundamentais para a ciência e continuarão sendo. O problema não está em contá-los. O problema surge quando aquilo que é mais fácil de contar passa a definir aquilo que entendemos como produção científica.
Se estamos interessados em avaliação responsável, precisamos perguntar não apenas quanto uma métrica consegue enxergar, mas também quem e o que ela deixa de enxergar.
No caso brasileiro, o Currículo Lattes nos oferece uma oportunidade rara de observar essa diversidade. Olhar apenas para artigos em periódico não produz simplesmente uma imagem incompleta da ciência. Produz uma imagem desigualmente incompleta, que representa melhor algumas culturas disciplinares do que outras.
Nota Técnica
A análise utilizou 512.721 currículos de doutores da Plataforma Lattes e considerou registros referentes a 2021-2025. Para o resultado principal foi adotada uma definição restrita de produção substantiva, composta por artigos em periódicos, livros, capítulos, traduções, partituras, trabalhos e relatórios técnicos, processos e produtos tecnológicos, softwares, produção artística e registros de propriedade intelectual. Foram excluídos apresentações e resumos, artigos de eventos, cursos ministrados, materiais didáticos, entrevistas, websites, editoração e categorias heterogêneas de “outras produções”. A classificação disciplinar utilizou a primeira grande área registrada no currículo.
| Grande área | Doutores com produção substantiva | Sem artigo em periódico |
| Linguística, Letras e Artes | 21.654 | 27,9% |
| Ciências Humanas | 56.251 | 19,4% |
| Ciências Sociais Aplicadas | 39.946 | 19,2% |
| Engenharias | 24.671 | 8,1% |
| Ciências Exatas e da Terra | 39.282 | 7,1% |
| Ciências da Saúde | 53.910 | 6,3% |
| Ciências Agrárias | 27.111 | 5,2% |
| Ciências Biológicas | 36.915 | 4,0% |
| Brasil | 326.799 | 11,8% |
* O total Brasil inclui também 27.059 doutores classificados como “Outros” ou sem primeira grande área informada, não apresentados separadamente na tabela.
Como teste de sensibilidade, foram usadas definições progressivamente mais restritivas. A proporção de doutores com produção registrada, mas sem artigo em periódico, foi de 17,2% na definição mais ampla, 15,2% após retirar apresentações e resumos, 14,5% após excluir também produções ligadas a eventos e 11,8% no núcleo restrito usado como resultado principal. Entre currículos atualizados desde 2025, esse último valor foi de 10,4%. Os resultados descrevem registros presentes nos Currículos Lattes e devem ser interpretados como produção declarada na plataforma, não como reconstrução exaustiva de toda a atividade científica de cada pessoa.
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